Last Friends – Dorama

Entender as pessoas é realmente difícil.

Ainda agora eu penso que se eu tivesse a habilidade de entender o coração das pessoas,

se eu tivesse colocado um pouco mais de vontade em fazer isso

eu imagino se aquela morte poderia ter sido evitada.

Já faz um bom tempo que não comento nenhum dorama por aqui, não? Apesar dessa escassez, as novelas japonesas ainda fazem parte das possibilidades e tenho até alguns atrasados para comentar. Em uma pequena “eleição” que fiz ontem no Twitter, a maioria pediu por um post sobre dorama, então venho falar sobre o último que vi, Last Friends.

Polêmico o bastante para chegar a virar coluna na Folha Online, este dorama da temporada de primavera japonesa de 2008 consegue nos seus 11 episódios falar e, principalmente, mostrar situações polêmicas que estão presentes não só no Japão, mas também no ocidente, tocando em assuntos delicados de uma maneira emocionante.

Olhando rapidamente pelos sites e vendo as sinopses apresentadas, parece ser fácil dizer sobre o que Last Friends realmente trata, mas a verdade é que todos os personagens poderiam render discussões profundas sobre suas personalidades e a maneira dicotômica como se apresentam ao mundo e como verdadeiramente são.

A, em teoria, protagonista é Michiru Aida (Nagasawa Masami), uma jovem que apesar de problemas familiares com sua mãe beberrona e o ijime que enfrenta dentro do próprio trabalho (cabeleireira), procura ser feliz, principalmente por achar ter encontrado o grande amor da sua vida, o funcionário público Sousuke Oikawa (Nishikido Ryo) que trabalha no departamento de Bem-estar infantil, que tem como objetivo impedir abusos e violência contra crianças.

Entendendo que aí reside sua oportunidade de ser feliz plenamente, Michiru começa a morar com Sousuke, mas rapidamente descobre um outro lado do homem que ninguém poderia esperar; ciúmes extremos, abusos, violência.

Apesar disso, o amor que Michiru sente por Sousuke não permite que ela se afaste dele completamente. Você pode até estranhar esse comportamento, principalmente se for uma mulher independente, mas mesmo aqui no Brasil as estatísticas de mulheres que voltam ou se mantém com parceiros violentos é bem alta. Infelizmente.

Entre esse dilema, Michiru reencontra sua melhor amiga dos tempos de colegial, Ruka Kishimoto (Ueno Juri), e um novo mundo se abre, com o apoio de sua grande amiga e de novos que acaba conhecendo por intermédio de Ruka.

“Ok, então é um dorama sobre violência e superação pela força da amizade!”. Não, Last Friends não teria sido o sucesso que foi com uma trama tão simples assim. Apesar dessa ser a trama central por onde corre o dorama, ainda temos muitas camadas a percorrer.

Ruka é uma corredora de motocross, cabelos curtos, roupas masculinas, consegue entender o padrão? No início poderíamos estar somente estereotipando aquilo que de forma rude muitos chamariam de “sapatão”, mas, apesar desse tipo de termo não ser o correto por carregar uma forte carga de preconceito e não abarcar toda complexidade psicológica de uma pessoa assim, Ruka é sim lésbica e não se sente nada confortável no seu corpo de mulher.

Violência doméstica, abuso, lesbianismo, amizade. Não, ainda não estamos nem na metade das questões levantadas por Last Friends. Falar mais seria entregar demais a série, mas coloque traumas infantis, solidão, medo, preconceito e você estará chegando mais próximo.

Apesar da gigantesca quantidade de temas polêmicos, Last Friends  não se perde, consegue envolvê-los de uma forma organizada o suficiente para que todos andem no mesmo ritmo, amadurecendo aos poucos, sem pressa, impedindo que um tema se sobressaia demais sobre os outros.

O elenco de Last Friends é forte, vencendo as categorias de melhor ator e atriz no 57th Television Drama Academy Awards.

Ueno Juri, mais conhecida pela boba e esquisita Nodame Cantabile, se transforma de uma maneira que você nunca associaria as duas personagens. Engolfada pelos embates culturais, sociais, emocionais e pessoais que sua personagem vive, Juri transparece todas as facetas de Ruka de uma forma perfeita. Com certeza uma das melhores atrizes do Japão. Qualidade na atuação e versatilidade, o mais pedir?

Aos que assistiram 1 Litro de Lágrimas e se lembram de Ryo Nishikido como um amável garoto apaixonado, se surpreenderão com a mudança que Nishikido consegue alcançar com o violento Sousuke. É de se assustar.

Admito que não gostei muito da atuação da Masami Nagasawa como a Michiru, ficando exageradamente melodramática ou boba demais. Além deles temos ainda Mizukawa Asami e Yamazaki Shigenori que com menor importância na história, servem como apoio, principalmente na carga de comédia, dando a leveza necessária para se contrapor à carga emocional do dorama. Não se sobressaem, mas mantém a qualidade. Por último, e apesar da sua importância dentro da trama, temos Eita como o traumatizado Mizushima Takeru. Apesar de não comprometer, não consegue adicionar muito à novela.

Last Friends não conseguiu o sucesso que teve, obtendo altos índices de audiência, à toa. Com uma trama sólida e carregada de emoções e polêmicas, mostra  com um tapa na cara para uma sociedade tradicional o que muitos preferem fingir não enxergar. Existem algumas falhas, claro, algumas repetições, mas nada que tire o brilho desse ótimo dorama.

São tramas assim que deveriam surgir no Brasil, que por mais libertário que tente parecer, ainda é na verdade uma grande fonte de hipocrisia tradicionalista e retrógrada. Não estamos falando aqui de cenas, mas de uma trama baseada nesses assuntos que a maioria dos autores brasileiros não quer pisar, com medo da audiência rejeitar. Impressiona ver um país como o Japão produzir doramas como esse ou Life, enquanto o Brasil tira isso dos olhos do grande público ou o suaviza de forma ridícula.

PS: Além das virtudes da trama, o tema de Last Friends, “Prisoner of Love”, é uma belíssima canção de ninguém menos que Utada Hikaru. Quer mais o que para assistir agora mesmo?

PS2: Uma curiosidade é ver a marca Bad Boy estampada durante as corridas de Motocross.

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5 respostas para Last Friends – Dorama

  1. shamps disse:

    AAAAAAAAAAh… como todos meus doramas ffavoritos tem musica da utada *_*
    mas pantufices a parte.. o post ficou ótimo e eu com mt vontade de assistir esse.
    infelizmente ainda temos q ter esses temas tratados de forma clara só c\ essas produçoes estrangeiras

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  3. Panina Manina disse:

    Logo o Dorama que ainda não assisti.
    Tenho aqui, é o próximo da fila, então entenda porque não lerei.

  4. Roberta disse:

    Quer mais o que para assistir agora mesmo?

    Nossa, vou assistir o mais rápido possível. Nem nunca tinha ouvido falar sobre ele (não entende nada sobre doramas) mas depois dessa belissima resenha, fiquei muito empolgada, parabéns. Antes quero assistir Densha Otoko, mas ele será o seguinte.

    Como parece que você não liga, vou assinalar um erro ortográfico; “Ruka é sim lésbica e não se senta nada confortável”. No caso seria não se sente, né?

    *****

    • Denys Fantasma Almeida disse:

      Obrigado pela correção Roberta, certamente não ligo, servem sempre para melhorar os posts!

      Gyabbo!

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