Kokuhaku – Confessions – J-Movie

Antes de começar a ler saiba que o filme É muito bom e merece ser visto. Recomendo que assista primeiro e leia esse texto posteriormente. Buscarei limitar os possíveis spoilers, mas para uma experiência maior ir às cegas certamente é melhor.

Yuko Moriguchi é uma professora de ensino fundamental que está se despedindo de sua atual turma e colégio onde trabalha. Com um tom calmo e frio ela começa a explicar aos seus alunos sobre a morte da sua filha de quatro anos – a pequena e adorável Manami. Mãe solteira, Moriguchi se divorciou do marido quando o mesmo descobriu ser portador do vírus da AIDS, uma difícil decisão que na verdade partiu dele, tendo em mente o estigma social que a filha receberia pela doença do pai. Sendo a razão da sua vida, a morte de Manami destrói a vida da professora, especialmente por saber que na verdade ela foi assassinada, sabendo inclusive a identidade dos seus algozes – dois alunos da sua classe que não poderiam ser condenados pelo crime por serem jovens demais para responderem por seus atos perante a lei japonesa.

A morte de sua filha deixa em Moriguchi um vazio imensurável, necessitando ser preenchido. Assim, se o sistema não punirá os assassinos, cabe a ela fazê-lo. Começa aí uma impressionante história de vingança que irá girar a câmera pelo passado, presente e futuro, mostrando os acontecimentos que – talvez – foram os responsáveis pelos acontecimentos e suas consequências. Mas o filme sai da simples causa-efeito, cada personagem possui inúmeroas camadas e cada comportamento vai sendo decomposto em partes cada vez mais profundas.

Divido em atos que dão voz aos personagens chaves do longa, temos na primeira meia-hora uma longa sequência em sala de aula – onde se passa a maior parte do filme – que pode desanimar alguns por sua lentidão, o que seria uma análise no mínimo injusta; não vá esperando um ritmo rápido, hollywoodiano, não, o filme não tem pressa pois sabe exatamente onde cada revelação irá surgir. Nesse ponto é admirável a direção de Tetsuya Nakashima e o trabalho do diretor de arte Towako Kuwashima, todo filme é carregado por sombras que dão um estilo carregado, mórbido, pesado, o que cabe perfeitamente com o roteiro. Outro ponto que ajuda o filme a fluir, além de acrescentar uma beleza ímpar, é a fotografia perfeitamente encaixada e que carrega sempre uma simbologia instigante.

Kokuhaku – ou “Confessions”, “Confissões” como ficou o título em inglês e português – pode ser entendido como uma forte crítica à sociedade japonesa e sua anulação do individual; cada um se dilui e se esquece na multidão. O bem maior, o conjunto, a excelência – não como o indivíduo se sobressaindo, mas na eterna cobrança e comparação com os outros. Do preconceito a um doente crônico, passando pelo filho de outra mãe, até a família japonesa com seus papéis fixados para cada membro, tudo é apresentado de forma natural, mas contundente.

Na sua uma hora e 46 minutos de duração, Kokuhaku, como já dito, pode parecer lento e cansativo, mas o balanceamente entre desenvolvimento e pequenas revelações tiram o espectador do conforto, dando o dinamismo que muitos podem sentir falta (a primeira revelação, especialmente, é de cair o queixo).

Muitos podem lembrar da famosa trilogia da vingança do coreano Park Chan-Wook, e de certa forma eu acredito que exista sim uma grande influência, mesmo que Kokuhaku seja baseado em um livro da autora Kanae Minato de 2008 (isso se a própria autora não foi influenciada). Park e Minato usam como material o lado mais negro de sociedades que cresceram vertiginosamente na segunda metade do século passado e que procuram esconder seus problemas.

Se não é um filme para o grande público – e mesmo para um público mais “intelectual”, tanto que não passou para a lista final dos indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2011 (mesmo ano em que o filme baseado na vida de Lula foi enviado pelo Brasil) – certamente é um dos melhores filmes que eu já assisti e por isso recomendo, mesmo que muitos possam não gostar pela diferença gritanto com a curva normal.

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17 respostas para Kokuhaku – Confessions – J-Movie

  1. Roberta disse:

    Eu assisti Confessions faz algumas boas semanas, realmente é uma filme fantástico em todos os sentidos. A atuação dos atores está excelente e o roteiro foi bem executado do inicio ao fim. Destaque ainda pra trilha sonora que ficou épica.

  2. Kauê disse:

    “pode ser entendido como uma forte crítica à sociedade japonesa e sua anulação do individual, cada um se dilui e se esquece na multidão”

    Cara, a dinâmica social japonesa historicamente é coletivista com anulação do indivíduo. Questionar isso é um olhar um tanto quanto ocidentalizado. Será que essa postura individualista afirmativa já está surgindo no Japão? (que no meu ponto de vista, é muito menos ocidentalizado do que se supõe)

    Esses assuntos fascinam, sou um apaixonado por psicologia, vou assistir com certeza.

  3. Pow gostei da review do site, vou assistir com certeza

  4. vinicius disse:

    queria ler pastel mas não dá!

  5. DougF disse:

    Muito bom, fora alguns exageros com sangue igual a filme de terror, imagino que para eles soe como uma cena forte, mas acaba como artificial do que seria real.

  6. Andy disse:

    Se inspirou no post do NerDevils?

    • Denys Fantasma Almeida disse:

      @Andy

      Na verdade eu não conhecia este blog. Procurei, li o texto (muito bom por sinal), mas tem suas diferenças claras.

      Gyabbo!

  7. Deborah disse:

    O filme é simplesmente perfeito!Eu li a sinopse em um dos sites que baixo filme e fui atraida por ele no mesmo instante.Achei ótima a análise psicológica que vemos no decorrer do filme,a atuação mais que perfeita dos personagens(eu ia tentar escrever as que eu mais gostei mas a atuação de todos eles é ótima!),a escolha por deixar o filme soturno…Bem tudo no filme é ótimo.
    P.s:Amei a análise que você fez,ela foi perfeita e muito bem escrita^^
    Bjs

  8. Helton disse:

    Poxa Gyabbo, obrigado demais pela recomendação. Eu assisti o filme e achei incrivel.
    PS: Essa é a primeira vez que visito o site

  9. sasa disse:

    PQP!!!!!!
    Esse filme é incrível!!! Eu nunca tinha assistido um Jmovie tão bom!!!
    Nossa, obrigada pela recomendação!
    O filme foi uma montanha russa gigantesca! Eu já não sei o que pensar dos personagens. Eles são tão bem trabalhados e contruidos que simples conseitos como “bom” e “mau” são impossíveis de serem aplicados. Tomara que esse fime ganhe o Oscar de melhor filme estrangeiro. Vou procurar agora mesmo os trabalhos anteriores do diretor para assistir.

  10. König Klavier disse:

    Lendo seus posts, pude confirmar uma coisa: todos os fãs de animes e mangás dizem que gostam da cultura japonesa. Por favor, escreva correto: “gosto da indústria cultural japonesa” ou então “gosto da cultura de massa japonesa”. Isso pode surpreender você, mas mangá e anime é cultura de massa, é mercadoria, é gordura (são parte da cultura japonesa, mas representam algo muito inferior). É igual a HQ e filmes norte-americanos, ou as novelas brasileiras (aliás, alguns mangás shoujo e novelas são idênticas às novela brasileiras, com as mesmas histórias e situações, então não sei qual a diferença). O que você sabe sobre literatura japonesa? Citou um livro porque virou filme ou mangá. O que você sabe sobre pintores japoneses? Sobre seus artistas? Sobre o teatro? Sobre o cinema, sem ser o mais recente que tem projeção mundial? O que você sabe sobre as religiões nativas? Sobre política? Sobre a história para além dos samurais? Sobre a organização social e seu sistema simbólico? Não muito, só o básico para configurar um gosto pela cultura japonesa em geral. Cultura e cultura de massa são coisas distintas. Não se preocupe em responder, é apenas o comentário de alguém que perde muito tempo, por exemplo, lendo autores japoneses clássicos e trabalhos acadêmicos que estudam e analisam a cultura e a história japonesas de modo criterioso – em suma, sou um ignorante em cultura japonesa em geral.

    • Denys Fantasma Almeida disse:

      @König Klavier

      Então, primeiro, parabéns por sua busca por saber e pela humildade, são duas coisas sempre positivas de andar juntas. Realmente não sei praticamente nada sobre essas coisas que você colocou (e que não representam ainda sim, 10% da cultura japonesa), mas a verdade é que nem tenho pretensão disso. Não, sério, até fiquei preocupado e fui buscar no post se havia alguma afirmação com esse teor, felizmente não tem por que eu não gosto de falar algo assim, prefiro referir às coisas que escreve como “entretenimento pop japonês”, aquela coisa de massa, de momento.

      Você parece escrever e entender realmente bem muitas coisas, isso é fantástico, só tenha mais cuidado ao tentar julgar uma pessoa (e pior, generalizar) sem ler direito o que ela escreveu.

      Gyabbo!

  11. Kyon disse:

    Influenciado por vários anúncios no twitter fui instigado nesta noite, a qual me dei uma folga, a ver este filme. E não arrependo, aliás arrependo-me de não ter visto antes. É um filme fantástico, mas que isso, achei o melhor filme que vi nos últimos anos e como citou a arte e a dinâmica é trabalhada de uma forma tão bem estruturada e tornando a obre tão mais interessante que eu diria que ele chega ser sim muito melhor que todos os filmes que concorreram ao último oscar e o lha que o o filme que mais tinha gostado (O discurso do Rei) ganhou.

    Ótima postagem e ótima indicação, pode ter certeza que na próxima indicação de filme eu tratarei de não demorar tanto para ver.

  12. Américo Santos Guimarães disse:

    @König Klavier
    Me surpreende que um ignorante da cultura japonesa em geral tenha se dado ao trabalho de ler sobre tal assunto a ponto achar que leu o suficiente para criticar quem escreveu.Ou talvez não tenha lido e por isso vem aqui prestar uma critica sem fundamentos.
    Alem de que se algo faz parte da cultura japonesa(mesmo que de massa) oque lhe daria direito de cobrar que as pessoas não se refiram a tal como cultura japonesa. Me surprende ver alguem que se diz pesquisador da cultura queira considerar apenas o classico como cultura e ignorar oque é apreciado no presente.

  13. Américo Santos Guimarães disse:

    Parabéns pelo post, e obrigado pela experiência que este me proporcionou. O filme é ótimo. Me surprendi com a atuação do elenco, pois, ja havia visto algumas das “caras” do filme em outras obras que pecavam nas cenas mais dramáticas, ou cômicas.

  14. Pingback: 3 anos de Gyabbo! – A consolidação de uma trajetória |

  15. layla disse:

    Eu quero muito assistir este filme ,mas eu não sei onde comprar ou baixar e não da para assistir online, faz um mês que estou procurando e não acho em nenhum lugar.

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