Xing Kong – Starry Starry Night – Taiwan-Movie

Alguns leitores devem estar atentos à tensão diplomática que há entre China e Taiwan. Resumidamente, em 1949, o governo chinês se transferiu para Taipei, na ilha de Taiwan, para fugir da revolução comunista, perdendo a soberania sobre a China continental. Entretanto, o governo em Taipei ainda reinvidica o poder sobre toda a China, enquanto o governo comunista em Pequim clama autoridade sobre Taiwan. Com tudo isso, é de se esperar que as relações entre as duas partes não sejam muito amistosas.

A resenha de hoje se trata, justamente, de uma obra que conseguiu atravessar essa barreira diplomática, firmando-se como a primeira grande coprodução entre China e Taiwan. Parcerias do tipo são raras, pois precisam passar por uma censura ainda mais rígida, filtrando qualquer mensagem de cunho político. Starry Starry Night, entretanto, foi um exemplo de colaboração saudável, tendo sido lançado em ambos os países mantendo seu script original intocado.

Xing Kong - Starry Starry NightStarry Starry Night (2011) narra, do ponto de vista de uma garota de 13 anos, a fase de transição entre a infância e a adolescência. É uma leve mistura de drama, romance e aventura que, embora seja direcionado a um público mais geral, não deixa de carregar um significado mais profundo.  É focado nos pequenos detalhes, em uma fase em que eles são tudo o que importa.

Tendo vivido toda a infância com o avô, em uma casa isolada nas montanhas, a protagonista Xiao Mei (Jiao Xu) é obrigada a se mudar para a casa dos pais, na cidade. Sua mãe era apaixonada por arte, tendo inclusive estudado em Paris, e instituiu na família o hábito de, anualmente, montarem juntos o quebra-cabeça de alguma pintura famosa. O casamento dos pais se deteriora, e logo ela se vê esquecida em um ambiente familiar hostil. Símbolo disso é o quadro A Noite Estrelada, que dá nome ao filme, o qual Mei monta sozinha.

O outro protagonista é Xiao Jie (Hui Ming Lin), um aluno tímido que, por viver sendo transferido, não consegue criar laços de amizade facilmente. Sua introversão acaba sendo confundida com arrogância, e por isso termina despertando a ira de seus colegas, que fazem bullying nele. Mei, por sua vez, percebe que Jie tem um lado artístico. É intencional o enfoque dado na primeira parte do longa à aproximação entre os dois. É lenta, divertida e movida à curiosidade, muito como se espera de um amor pueril. Tudo, desde os aspectos mais gerais, como personalidade e comportamento, até os mínimos gestos e atitudes, é apresentado de forma que o espectador simpatize com o casal.

A segunda parte trata da aventura escapista dos dois. Se encontrando sufocada por acontecimentos infelizes logo no início de sua adolescência, Mei procura refúgio na casa do falecido avô nas montanhas, com o objetivo de relembrar da sua infância onde todos esses problemas não existiam. É nesse momento que temos o clímax do relacionamento infantil dos dois, e também, onde as coisas começam a deixar um pouco a desejar.

Houveram várias oportunidades de desenvolvimento que foram perdidas, onde se optou por cortar a espontaneidade típica juvenil e mostrar cenas bonitas, mas idealizadas demais. As cenas finais, que têm um tom de “moral da história” com Mei narrando suas conclusões sobre tudo, acabam pecando por passar sua mensagem de forma clichê, soando até um pouco piegas.

O epílogo, que mostra uma Mei já adulta, entretanto, é surpreendente de forma positiva. Carregando toda a simbologia utilizada no longa, respondendo às dúvidas que ainda estavam abertas, fecha tudo com chave de ouro. Eu diria até que o epílogo por si só vende o filme.

O trabalho no quesito atuação é quase impecável. Parte disso se deve ao elenco adulto, bastante experiente, mas aqui é o elenco jovem que brilha. Jiao Xu mostra uma atuação bastante madura para uma atriz de apenas 14 anos, consequência de vários trabalhos anteriores, embora nenhum como personagem principal. Não tem como não se apaixonar por seu sorriso meigo ou se comover com seu rosto triste. Hui Ming Lin também surpreende para um estreante, não apresentando nenhuma timidez além da que seu personagem exige.

Um dos maiores atrativos de Starry Starry Night é o visual. O cinematógrafo Jake Pollock fez um trabalho excelente, alternando entre uma atmosfera mágica e sonhadora ou uma realidade dura e seca quando adequado. Soube o exato momento de parar, de acelerar ou de usar slow motion. As cores, iluminação e cenários nos entregam uma experiência de fato estonteante.

Outro ponto de destaque é a utilização de computação gráfica. Eu fico bastante decepcionado ao ver como uma ferramenta tão poderosa como CG é subutilizada rotineiramente, especialmente em hollywood. Muitas vezes parece que apenas a usam para ostentar a capacidade técnica e não para acrescentar algo ao feeling da obra. Aqui, pelo contrário, temos um dos usos mais inteligentes da tecnologia no cinema, dando vida e forma a sonhos, medos, objetos e sombras de forma única.

Mas não são só os efeitos visuais que são dignos de nota: os efeitos sonoros também são bem aproveitados durante todos os 99 minutos, com a intensidade adequada a cada cena e cada momento. A trilha sonora merece um destaque especial, sendo inteiramente composta pelo japonês Katsuhiko Maeda, que assina pelo projeto World’s End Girlfriend. Eu, que sou tiete dele, talvez não possa falar muita coisa, mas acredito que esse é um de seus trabalhos mais intimistas e delicados.

Starry Starry Night é baseado no livro ilustrado homônimo, de autoria de Jimmy Liao, com bastante sucesso na ásia. Infelizmente, não há tradução disponível para inglês ou português, mas, para matar nossa curiosidade, nas cenas de crédito foram adicionadas ilustrações do livro, nos permitindo traçar alguns paralelos. É possível perceber o esforço dos produtores em manter o espírito original de sua fonte.

Eu nem vou dizer que essa é a obra prima do diretor Tom Lin, pois esse é apenas o segundo longa que dirige. De fato, um grande feito pra alguém com tão pouca experiência. Por fim, recomendo para qualquer um que esteja querendo assistir algo leve, divertido e visualmente atrante.

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