Mangas Undergrounds #9 – Ai-Ren

coluna-mangas-undergroundsAi-Ren é um mangá escrito e desenhado pelo autor Yutaka Kanata, serializado na Young Animal (casa de Detroit Metal City, Holyland e Suicide Island) no ano de 1999. A obra não foi publicada por nenhuma editora americana ou brasileira.

AiRen1Estamos no futuro, não sabemos exatamente em que ano, mas nos deparamos com Ikuru, um garoto com uma doença mortal que está corroendo o seu corpo. Para aliviar os momentos finais de sua vida, ele pede por uma tecnologia chamada Ai-Ren, que consiste basicamente em um ser humanóide que foi construída especificamente para dar suporte mental a pacientes terminais nesses tempos difíceis.

O menino ganha a sua Ai-Ren, que logo resolve chamar de Ai, mas ela parece ter vindo com alguma espécie de defeito, visto que ao invés de ajudar o Ikuru com seu atual estado, a garota age como uma pequena menina, extremamente infantil. E é convivendo com a inesgotável felicidade da  Ai enquanto tenta lidar com o seu inevitável fim que Ikuru irá tentar descobrir o que a vida e a morte realmente significam.

Além do núcleo do casal incomum, ainda ganhamos um segundo menor foco: uma inconsistente visão de como toda a política de interação mundial está funcionando. Parece que a raça humana perdeu a capacidade de se reproduzir e o conceito de sexo foi perdido ao longo do tempo, levando à nossa possível extinção. Além disso, uma nova raça que poderá subjugar os humanos aparenta estar surgindo, guerras estão acontecendo e tudo isso será acompanhando pelo ponto de vista dos humanos que estão tentando salvar a civilização nesse caótico momento.

AiRen2Acho nada mais do que justo dizer que um dos maiores apelos deste mangá é o caráter slice-of-life moe que ele possui, afinal, uma grande porção do mangá é sim “garotinha bonitinha fazendo coisas bonitinhas”. Existe uma enorme porção de simples cenas cotidianas sem um motivo muito explícito na obra, as coisas andam num ritmo bem lento e o character design, apesar de ter um toque próprio, é bem padrão do típico moe, não há como negar tudo isso. Esses aspectos, no entanto, também não é algo necessariamente ruim.

Presenciamos todo o cotidiano de Ikuru e Ai, nos apegamos a eles e esse apelo, que não necessariamente domina o mangá inteiro, é realmente primordial pra nos aproximar a esses dois personagens, principalmente pelo tema geral que o mangá aborda. Aliás, é exatamente esse tema que me impede de colocar Ai-Ren ao lado de obras de um “moe” mais puro, como K-ON!. É a sua maturidade e honestidade na hora tratar o grande tema da morte que fazem essa obra se destacar.

AiRen3Ikuru está morrendo, ele sabe disso, mas não sabe como reagir. Para tentar enfrentar os seus problemas de alguma forma, o menino pede a ajuda da  Ai, que realmente proporciona momentos de felicidade, mas até que ponto esses momentos seriam válidos? A Ai foi feita e projetada para ajudar o garoto, seriam essas felicidades falsas? Há validade nos bons momentos que ele passa com a garota, mesmo eles sendo planejados?

Esse tipo de questionamento não é uma constante na obra, mas uma vez feitos, caminham com o personagem e o leitor até o final. Devido aos frequentes momentos alegres, muitas vezes, principalmente no começo da história, esquecemos de nos fazer essas perguntas, esquecemos até da inevitável morte do protagonista. No entanto, toda vez que entramos em estado de relaxamento mais profundo com a obra, o enredo faz questão de nos lembrar de quão trágico é o final que tudo isso irá resultar.

É nesse debate interno entre alegria, tristeza e uma verdadeira reflexão sobre a vida que a história toma forma. Os bons momentos que o casal passa são extremamente satisfatórios por essa exata característica; os momentos mais trágicos são de literalmente fazer você derramar lágrimas, justamente por esse contraste com a alegria constante. Tudo isso acompanhado pela certeza de um final trágico faz o leitor realmente repensar o significado da tristeza e da alegria, tanto para os personagens quanto para ele próprio e não somente senti-los.

Airen4O desenvolvimento do personagem principal e sua constante mudança de visão em relação à vida e à morte é outro lindo caráter da obra bom de se acompanhar. Por ser um tema tão comum e tão difícil de enfrentar, tanto para Iruku quanto para o leitor, acontece quase que uma identificação imediata diante de qualquer forma que o garoto encare o seu destino. Nos incorporamos no Ikaru e tentamos entender o motivo dele estar do jeito que está e se a forma com que ele está agindo é a mais correta.

Engana-se quem acha que a Ai-Ren cumpre somente um papel de suporte nisso tudo. Digo, é claro que ela cumpre muito bem o papel de mostrar e fazer o Ikuru ponderar sobre sua situação, mas ela também ganha um desenvolvimento próprio. Ainda no começo do mangá, descobrimos que a menina provavelmente irá morrer antes do Ikuru. Durante a história inteira, enquanto amadurece como pessoa, vemos ela mesma encarando e enfrentando os seus desafios, de forma a realçar o seu desenvolvimento mais ainda.

Tudo isso é acompanhado por uma arte que poderia ser definida como “simplista” e “detalhista” ao mesmo tempo. Os amplos e bem desenhados cenários entram em uma enorme harmonia com simplicidade dos personagens, fazendo o leitor aproveitar e se apegar ao trabalho por trás de cada um deles. Os enquadramentos só ajudam também: os quadros de apreciação de paisagens são tão belos e contemplativos quanto páginas inteiras com um único e gigante de close no rosto da Ai.

Airen5Um ponto que talvez possa incomodar algumas pessoas é a idade da Ai e como isso é tratado na história. Pesquisando no Google sobre o mangá, as primeiras imagens que aparecem são páginas em que a personagem está em situações não necessariamente sexuais, mas que ao menos remetem à erotização. Sei que é algo que irá imediatamente ofender algumas pessoas, mas realmente acredito que o autor não teve nenhuma intenção apelativa nesse sentido principalmente por toda a temática e o contexto da história, sinto que o autor utilizou da nudez e dos nossos conceitos pré-estabelecidos sobre sexualidade para tentar passar uma visão diferente de sociedade, mas também para construir psicologicamente os seus personagens.

Em uma das cenas inciais, por exemplo, a Ai entre sem roupa nenhuma dentro do banho com o Ikuru e o garoto se abraça com ela, enquanto mama nos peitos da garota. Sem duvida há um apelo carnal nessa cena, mas duvido que esse seja o primeiro pensamento de quem leia essas páginas. Durante a maior parte do decorrer do mangá, a busca pelo entendimento emocional dos personagens é uma ideia muita mais forte em momentos como esse.

Enfim, é complicado e não quero em aprofundar ainda mais, porém tudo isso é (mais ou menos) justificado pelo aspecto inicial da história que comentei: a humanidade perdeu sua capacidade reprodutiva e o sexualidade sumiu como conceito há muito tempo. É nesse sentido que quase qualquer situação sexual que o casal se envolva é encarada na história com o máximo de inocência possível. Mesmo quando os dois, conscientemente, se envolvem em beijos ou abraços, é somente como a máxima demonstração de amor possível, sem qualquer pudor ou pensamento malicioso por trás. Enfim, não acho que esse seja o melhor motivo para alguém largar a obra, os acontecimentos são bem construídos e não ofendem ninguém. A personagem feminina nem tem uma idade definida pra falar a verdade.

AiRen6No final das contas o que maioria das pessoas que leram essa obra vão te falar sobre ela é “Você vai chorar” e bom… você vai chorar! Um choro de real tristeza com o encadeamento de acontecimentos da história, mas de certa forma um choro sereno também. Ai-Ren é um dos mangás com os discursos mais sinceros com relação à vida e à morte que eu já li. A mensagem final sobre a a nossa existência passageira é levada com um verdadeiro significado com o leitor, tudo é construído e levado pra isso.

Esta é uma obra pra ser lida, aproveitada, refletida e levada para o resto da vida. É por tudo isso que eu…

Recomendo: Ai-Ren.

10 respostas em “Mangas Undergrounds #9 – Ai-Ren

    • Haha, o choro é difícil de se controlar mesmo, principalmente no capítulo em que imagino que você chorou. A narrativa silenciosa é tão bem construída nessa parte, que dá aquela sensação de querer chorar e não conseguir e então finalmente conseguir soltar, é estruturalmente muito bem feito mesmo.

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  1. A temática realmente interessante, pelo menos para mim que nunca tinha visto algo sendo retratado desta forma por um mangá. Os comentários sobre a obra foram excelentes, eu consegui sentir até mesmo um pouco da tristeza da historia neles. Vou procurar para ler.
    Parabéns pelo post.

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  2. Mas aí, tem sexo mesmo nesse mangá? ou é só isso que você falou (uma mamada no peito, um beijo, mas sem sexo.) pq se tiver sekisso eu leio agora. moh jeitão de lolicon essa mina aí, faz meu tipo.

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    • Vou ser sincero, tem sequiçoo sim. E acho que é exatamente por esse tipo de reação, que o Denys chegou a comentar comigo que não tinha tanta certeza até que ponto concordava com essa minha visão da erotização no mangá.

      É aquele negócio né, tenho certeza que quando o autor trouxe o mangá, o editor não virou e falou pra ele “Oh cara, manera um pouco nesses fetiches aí que vai atrapalhar nas vendas”. Mas também não acho que foi com esse objetivo em mente que essa característica foi adicionada. E mesmo que fosse por esse motivo, o autor conseguiu conciliar muito bem isso na história, a ponto de agradar a quem gosta e fazer sentido pra quem se incomoda.

      (enfim, se esse tipo de coisa é o que te interessa, pode ler, mas só vai encontrar material bem soft, melhor ir atrás de coisa específica pra isso)

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  3. Ótimo post! (Ele sozinho é melhor que todo o conteúdo de uns blogs que se consideram melhores por aí, né?)

    Você tinha comentado sobre a obra no twitter e por um momento achei que tinha ficado puto com o final. De qualquer forma, tá na minha wish list desde então, e esse post vai acelerar bastante a leitura.

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  4. espero que publicam aqui no Brasil algum dia, vou lê la um dia.
    bem que vocês poderiam continuar com essas postagens sobre mangas undergrounds, são muito bons

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