[Coluna Hanyan #5] Hot Gimmick

Olá pessoal!

Para mudar um pouco em relação ao mangá “pesado” da última vez, hoje eu trago uma historinha leve. Com vocês a chantagem sexual de Hot Gimmick!

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Hot Gimmick é um mangá de Aihara Miki e teve seus capítulos originalmente publicados na revista shoujo Betsucomi (mesma casa de Black Bird), depois compilados em 12 volumes que foram lançados nos Estados Unidos pela  maravilhosa editora VIZ (não só individualmente, como posteriormente viraram edições maiores – os bunkos – de 3 volumes). A série chegou a ser anunciada no Brasil pela Conrad em meados de 2007 prometendo ser o nosso primeiro “steamy shoujo“, mas nunca foi lançada.

A história se desenvolve em uma espécie de condomínio construído por uma empresa para abrigar todos os funcionários e suas respectivas famílias. Olhando de relance essa ideia parece ser fantástica, não só pelo lado humano de fornecer uma casa aos funcionários como um benefício, mas também por criar um clima familiar entre eles, afinal são todos vizinhos, as crianças são amigas umas das outras e provavelmente frequentarão as mesmas escolas etc. Mas óbvio que se tratando de relações humanas nem tudo poderia ser perfeito. A hierarquia não é deixada do lado de dentro da empresa, contaminando todo o bloco residencial com uma espécie de sistema de castas: quem tem um cargo melhor na empresa manda mais e essa influência atinge a vida privada dos trabalhadores, dando margem para toda sorte de abusos e chantagens.

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E porque eu comecei o post falando do cenário enquanto normalmente apresento os personagens e suas histórias? Pelo simples fato de que o complexo imobiliário é a estrela de Hot Gimmick. É o mangá Cohab (acho que ouvi esse epíteto pela primeira vez em algum shoujocast)! Mais importante que os acontecimentos é contexto no qual eles se desenrolam e não existiria trama sem a hierarquia que há no complexo. Ele é o protagonista! (Da mesma forma que acontece com o Cortiço, no clássico de Aluísio Azevedo, como muito bem lembrou o Denys).

Essa influência negativa é enfatizada logo nas primeiras páginas da história quando conhecemos Tachibana Natsue. Esposa do homem com maior cargo por ali, ela é a rainha do condomínio e fica bem claro que utiliza da sua influência para prejudicar profissionalmente as pessoas que a desagradam.

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O meio, muitas vezes subestimado por alguns leitores e mesmo pelos próprios mangakas é o fato mais relevante do mangá. Porque não estamos falando de um colégio onde as relações por piores que sejam tem um prazo limite de duração, estamos falando de famílias inteiras pisando em ovos para agradarem as pessoas “certas” sob o risco de perderem seus empregos e automaticamente suas casas.

Nesse ambiente de submissão foi educada a nossa protagonista, Narita Hatsumi. Ela não é apenas mais uma heroína shoujo passiva e bobinha porque ela tem uma justificativa real e plausível para ser assim. Hatsumi odeia desagradar às pessoas porque foi criada para ter medo de fazer isso. É sensato da parte dela ser assim.

Alicerces construídos, vamos aos fatos!

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A jovem Hatsumi viveu de forma relativamente tranquila seus 16 anos, embora carregue alguns traumas de infância por culpa de seu vizinho, Tachibana Ryoki, filho de Natsue, uma criança extremamente mimada e até mesmo maldosa. No entanto as más lembranças são equilibradas pelas boas porque mesmo diante das agressões de Ryoki, Hatsumi sempre contou com seu outro vizinho para protegê-la, o belo e valente Azusa.

Sempre com medo de dar algum passo em falso, nossa protagonista se vê diante de uma situação agonizante: sua irmã caçula suspeita que está grávida, e só pode contar com Hatsumi para ir até a farmácia comprar um teste de gravidez. Apavorada com o possível escândalo que a gravidez (pré) adolescente de sua irmã poderia gerar no condomínio, mais especificamente sobre as providências que Sra. Tachibana tomaria diante disso, Hatsumi vai disfarçada até a farmácia cumprir a ignóbil missão.

Ela apenas não contava que seria flagrada justamente pelo vilão de seus pesadelos. Ryoki Tachibana, aquele menino distorcido que quase provocou a sua morte enquanto eles eram crianças descobriu sobre o teste, agora ele sabe de tudo. Implorando para que Ryoki mantenha seu segredo, chega a hora da proposta mais indecente de todas: Ele guardaria o segredo, contanto que Hatsumi se torne sua escrava sexual (?!?!).

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Nossa heroína, romântica e sonhadora, se sente ultrajada pela proposta. Porém, sem encontrar nenhuma alternativa, ela é obrigada a aceitar. E no meio disso tudo surge a figura do herói. O príncipe Azusa, que havia se mudado há muitos anos, retorna oportunamente ao condomínio (e quando digo “oportunamente”, interprete isso de forma literal porque ele aparece justamente na cena em que Hatsumi se vê obrigada a pagar sua parte no trato). Sim caro leitor, você não está imaginando coisas, porque diante dessa situação bizarra se forma um dos triângulos amorosos mais doentios dos mangá shoujo. E esse é só o primeiro capítulo!

O mangá é sobre a a vida afetiva da protagonista, como acontece em muitos shoujos, mas também somos apresentados a uma vasta gama de personagens interessantes e a série é longa e cuidadosa o suficiente para fazer com que nos importemos com eles. O trabalho nas sub-tramas é um grande diferencial em relação aos demais steamy shoujos que costumam bater sempre na tecla da exploração máxima da sexualidade do casal principal. Ao optar por contar também outras histórias, a autora enriqueceu mais ainda ideia de ambientar sua série em um conjunto habitacional, como se reforçasse a ideia de que mais gente mora ali.

É muito complicado falar sobre Hot Gimmick sem dar spoilers, por ser uma série consideravelmente longa e com alguns significativos plot twists pelo caminho. Então optei por me concentrar na situação inicial dos personagens para não estragar a experiência individual de desenrolar essa trama. Ou seja, vocês vão ter que ler se quiserem descobrir o resto.

Só aviso desde já: em Hot Gimmick nada nem ninguém é aquilo que parece. A série nutre um prazer especial em frustrar as suas expectativas e nunca primeiras impressões estiveram tão erradas quanto nesse mangá.

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O verdadeiro “artifício quente” da série é se valer de situações absurdas que procuram despertar o choque e ao mesmo tempo fazer isso tomando como base alguns conceitos sólidos que o leitor já tem: os clichês! Ou vai me dizer que o príncipe, a protagonista frágil e casta e o menino antipático são termos que não ativam nada na sua mente e te fazem lembrar de outros milhares de títulos? E talvez essa seja a fórmula secreta da série.

Hot Gimmick é um mangá… bizarro. Ele combina perfeitamente o refinamento e a profundidade da ambientação no conjunto habitacional e absurdos sexuais que darão o tom steamy da coisa, amarrando tudo isso com alguns dos maiores clichês dos mangás shoujo. Por isso é tão fácil encontrar outros títulos com situações parecidas com as vividas pelos personagens de Gimmick, ao mesmo tempo em que dificilmente você encontrará um novelão tão perturbadoramente delicioso quanto esse.

Até a próxima!

Mallu

8 respostas em “[Coluna Hanyan #5] Hot Gimmick

  1. Taí, esse parece ser o shoujo que estava esperando para me aventurar novamente no gênero.

    Esse conceito de uma “obra sobre um lugar” muito me interessa. Qualquer obra com histórias paralelas que se intercalam é um recurso que, quando bem utilizado, me faz sentir que a obra tem uma riqueza de conteúdo num outro patamar em relação a tramas menos “espalhadas” e mais diretas. Gosto de ver como os autores jogam com personagens de núcleos diferentes e os fazem interagir de formas inesperadas.

    Como contra-recomendação, sugiro dar uma olhada em Hikari no Machi, do Inio Asano, autor de Solanin e Oyasumi Punpun. A ideia de abordar a vida de pessoas de um mesmo local é mais ou menos a mesma, só que mais curto, direto, e com aquela pegada meio “maluca” típica do autor.

    Até mais!

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    • Realmente Guilherme, esse ponto sobre intercalar histórias é interessante em Hot Gimmick, mas não vá esperando muuuito do mangá. Ele se sobressai quando comparado com outros steamy, mas ainda assim não é lá muito profundo, apenas apresenta alguns aspectos mais refinados difíceis de se encontrar nesse tipo de obra.

      Obrigada pela recomendação!

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  2. Eu realmente estou pensando em voltar a ler shoujo por causa deste.
    Eu amei O Cortiço, amo mangá e odeio as personagens principais poias sem motivo. Com finalmente uma justificativa criada para a “poieza” e toda essa trama bem bolada ao redor da construção, só posso dizer que estou louca para ler!

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  3. Isso rola pra caramba no Japão. Uma ex minha sofria bullying porque era filha de um cara que era gerente de setor e durante a crise, perdeu o emprego. Foi a deixa pra todas as filhas dos outros empregados do setor virarem a mesa. E mesmo não morando no mesmo conjunto, no Japão tem muito de planejamento de vida. Então, em geral, as pessoas moram, estudam e trabalham perto, criando esse mesmo tipo de habitat, onde as famílias convivem e levam a hierarquia do trabalho pro cotidiano.

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