Innocent – Todos são culpados

Prepare-se para a Revolução! Conheça o manga Innocent, de Shinichi Sakamoto.

“Uma coleção de baionetas ou de guilhotinas é tão incapaz de deter uma opinião como uma coleção de moedas de ouro é incapaz de deter a Gota”

Stendhal

Bem-Vindos às segundas-feiras do Gyabbo!, onde os incríveis são normais!

Diga-me, quando eu falo sobre a França, quais as primeiras coisas que você pensa? A Torre Eiffel, os bares ao ar livre, os mímicos das ruas, a boina na cabeça, o vinho caro, o queijo fedido… mas uma delas, em especial, causa imediata identificação e medo: a Guilhotina.

O objeto foi criado para executar os criminosos condenados à morte, mas também para dar a estes pobres infelizes algo que parecia escasso naqueles tempos: piedade. Antes da criação da guilhotina as execuções eram feitas pelos métodos “tradicionais”, como enforcamento, decapitamento e até alguns mais horríveis (com o intuito de fazer a vítima realmente sofrer) como desmembramento, imolação e destruição lenta e dolorosa dos ossos à marteladas. A guilhotina, por ser limpa e precisa, foi criada para dar aos condenados uma morte rápida e sem sofrimento.

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Os carrascos eram figuras notórias. Ao contrário do imaginários popular, onde observamos figuras de executores medievais encapuzados, estes geralmente eram conhecidos por todos – e muitas vezes eram tão adorados quanto temidos. O executor oficial da França recebia o título de “Mounsier de Paris”. E é história de vida de um dos mais notórios deles que o manga Innocent, escrito e desenhado pelo genial Shinichi Sakamoto, conta.

A saga começa na França do século XVIII, ainda antes da criação da guilhotina. Nos primeiros capítulos conhecemos o jovem Charles-Henri Sanson, o filho mais velho do Mounsier de Paris atual. Vendo-se obrigado a assumir a amaldiçoada tarefa de tirar a vida de outros, o rapaz logo percebe que o seu caminho será trilhado pela dor e pelo sofrimento (dele e de outros), principalmente quando se vê obrigado a, logo de início, executar uma pessoa que ele ama.

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A história é baseada no livro do autor japonês Adachi Masakatsu, historiador que já escreveu vários livros sobre a França pré e pós-revolução. A história de Charles-Henri Sanson está em seu livro “Behead man, the neck XVI King Louis – The Executioner Sanson” uma tradução vaga de uma obra que, infelizmente, não tem sequer versão para o inglês ainda. Não tendo acesso ao livro original, temos apenas a obra de Sakamoto para nos basear. Ao que parece, o mangá não é uma biografia acurada do personagem em questão, mas sim uma espécie de “fanfiction histórica”, como a saga de Bande Dessineé Bórgia escrita por Alexandro Jodorowsky e desenhada por Milo Manara. E, levando em conta que estamos falando de uma história em quadrinho, isso é um ponto positivo.

O roteiro da saga nos apresenta, de entrada, um inocente e fragilizado Charles. Com apenas 14 anos ele é obrigado pelo pai e pela persuasiva avó a assumir a espada do executor. Aos poucos, a personalidade dele começa a endurecer, a fim de transformá-lo, no final, no grande carrasco da França, como a figura história real era. Porém, mesmo o Charles da vida real ainda parecia manter certas características “piedosas” como a da sua contraparte na ficção.

2Lembram-se da Guilhotina? Pois é. Charles-Henri Sanson foi um dos principais defensores do aparato criado pelo médico Joseph-Ignace Guillotin. Naturalmente, depois de executar mais de 3.000 pessoas, ele certamente percebia o quanto de sofrimento um golpe mal aplicado ou um nó malfeito de forca poderia causar ao condenado. A guilhotina, por outro lado, era uma forma de execução limpa e rápida (pelo menos na maioria das vezes), que foi usada na França até 1977, pouco antes da pena de morte ser abolida.

Quanto à arte, bem, Sakamoto brinda-nos com seus traços incríveis desde seu último hit: Kokou no Hito. Aliás, este autor só não é mais famoso porque suas obras geralmente possuem temas pouco usuais para os fãs de mangá, ou mesmo fãs de quadrinhos em geral. O próprio Koku é um mangá sobre alpinismo. Agora Innocent é um mangá histórico sobre execuções da França pré-revolução. Temas pouco usuais, mas que atiçam a curiosidade, sobretudo quando são feitos com uma arte tão maravilhosa e detalhada!

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A arte primorosa se faz presente nos incríveis detalhes dos personagens, suas roupas extravagantes, seus cabelos esvoaçantes, cores suaves (nas poucas páginas e capas coloridas) e até na primorosidade dos cenários (embora em alguns casos ele faça coisas meio malfeitinhas, como em alguns palácios e céus nublados que dá para ver claramente que é uma foto colada). O modo suave do traço encaixa-se bem à tônica da obra, ao mesmo tempo que, mesmo nas cenas mais violentas, ele ainda consiga transparecer toda a crueldade do ato. É uma obra visual magnífica!

No geral, Innocent promete ser a melhor obra de Sakamoto. Vamos aguardar pois ainda há muita história para correr nesse manga que até o momento conta com sete volumes encadernados.

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2 respostas em “Innocent – Todos são culpados

  1. Agradeço, pois li esse mangá graças a esse post. Realmente é mangá com uma história interessante e uma arte belíssima. Acho muito bom o jeito que o mangá é encerrado, tenho a impressão que o capítulo simplesmente acaba no meio da história;não tem aqueles finais impactantes que geralmente tem em outros mangás. É muito mais suave. Espero por novos capítulos >.<

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