Gigantomachia – Editora Panini – Volume único

Um futuro distante onde gigantes invadem e dizimam povos inteiros em torno de intrigas políticas no novo manga da editora Panini. Ataque dos Titãs? Não, estamos falando de Gigantomachia!

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Após passar 23 anos escrevendo uma única obra (vamos ignorar os hiatos aqui), o consagrado autor Kentaro Miura resolveu em 2013 dar mais uma pausa no sanguinário Berserk para escrever o manga Gigantomachia, publicado em seis capítulos na revista Young Animal da editora Hakusensha.

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Nessa curta história temos um mundo 100 milhões de anos no futuro onde aquilo que entendemos hoje como a civilização humana se tornou nada mais do que uma quase esquecida lenda. Com tanto tempo o mundo se dividiu entre duas diferentes raças humanoides; os “Hus”, os humanos que conhecemos, e os “Mus”, semi-humanos mutantes, pertencentes ao clã dos domadores de insetos; ambos vivendo em uma relação de ódio milenar, causado principalmente pela intolerância e busca por dominação por parte dos Hus, resultando no genocídio de milhares.

A partir dessa pano de fundo, acompanhamos a chegada de Delos, um forte guerreiro, e Prome, uma entidade da natureza que habita o corpo de uma pequena garota loira, à tribo dos Scaraves, um dos poucos povoados restantes de Mus que se esconderam no deserto fugindo do império dos Hus, recebendo a graça do gigante adormecido, Habi, o deus da fertilidade. Se inicialmente a dupla é hostilizada e quase sentenciada à morte, é a partir da união com os Scaraves que eles irão lutar contra a chegada dos Hus que buscam levar e controlar o gigante deus.

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Apesar de nunca ter lido ou assistido a Berserk, devo dizer que estava muito empolgado para ler Gigantomachia, especialmente por todo o hype que o nome de Miura carrega. Afinal, se o autor parou por um tempo de escrever sua obra mais consagrada, era de se esperar algo pelo menos no mesmo nível.

Dessa maneira, fui à leitura do manga e não me decepcionei. Desde o começo da obra somos apresentados com grande estilo a esse novo mundo, deixando-nos curiosos para investigá-lo. Não há como alguém dizer que a história é lenta, Miura nos coloca rapidamente a par dos protagonistas e suas personalidades, além de avançar a história até onde gostaria sem perder tempo, contextualizando-nos habilmente. Aqui alguém poderia apontar uma possível superficialidade excessiva das informações, mas é preciso entender a natureza da obra, feita exatamente para ser curta, não cabendo muitas explicações já que isso poderia fazer o autor se perder e deixar várias pontas soltas nas poucas páginas que tinha.

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Dividido em duas partes bem nítidas, Gigantomachia trabalha com dois temas principais: a honra e espiritualidade.

Num primeiro momento, Delos, ainda vista como um cão do império e como inimigo, luta contra o campeão dos Scaraves, o guerreiro Ogun. Nessa batalha invoca-se o “verdadeiro guerreiro”, aquele que não menospreza seus inimigos e que possui nas próprias mãos a ferramenta máxima para vitória. Delos luta não somente por sua vida, mas também para honrar os sentimentos projetados nele. Da mesma forma, Ogun não quer apenas eliminar um Hu, mas honrar o seu povo que vê nele uma forma de diminuir seu sofrimento histórico. É na união dessa demonstração de hombridade que diferentes raças conseguem verdadeiramente dialogar, sem que uma precise sobrepujar a outra. Não existem derrotados.

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E, agora um outro com valor, Delos pode, ao lado de Prome, ajudar o povo dos Mus a enfrentar o império que se aproxima em busca do deus adormecido Habi, mesmo que isso signifique a morte de mais tantas famílias e o fim de um ambiente próspero da natureza. Miura, mesmo sem poder se aprofundar muito, busca criar uma dicotomia reflexiva interessante, relembrando-nos da importância de nos encontrarmos com a natureza e respeitá-la para que possamos buscar uma espiritualidade realmente viva.

Um problema, porém, é a forma como o autor conduz tal ideia. É tudo muito interessante e divertido, especialmente pela arte dele ser espetacular, calcada em belíssimos detalhes que dão uma energia incrível às diferentes cenas, mas ao apresentar os oprimidos Mus enquanto personagens negros que precisam do estrangeiro branco para finalmente conseguirem a liberdade, há aí um problema grande de execução, caindo numa velha fórmula hollywoodiana que filmes como O último samurai nos mostram, por exemplo. Não me parece ter sido a intenção do autor diminuir os personagens negros, ainda que tenha feito isso, mas ainda é uma pedra grande no sapato de uma boa obra.

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Gigantomachia certamente é uma obra divertida, misturando bem ação e reflexão, mesmo apresentando problemas estruturais que uma série mais longa poderia evitar. Não sei se os fãs de Berserk também gostaria dela, mas os fãs de um bom manga podem ir sem medo, ainda mais pelo ótimo trabalho feito pela editora Panini em uma edição mais caprichada, com papel offset de boa gramatura ao custo de R$15.90.

Para uma outra opinião, essa bem diferente da minha, recomendo o parceiro Anikenkai.

PS: Só eu fiquei com a impressão de que o Miura estava dando uma indireta ao Hajime Isayama, de Ataque dos Titãs? Algo do tipo “Olha como eu junto MMA, gigantes e povos sendo dizimados de forma no mínimo tão interessante quanto a obra desse cara em bem menos capítulos e de forma bem melhor desenhada”.

6 respostas em “Gigantomachia – Editora Panini – Volume único

  1. Não tinha visto a obra por esse lado de minimizar personagens negros, mas realmente agora que comentou, dá essa impressão. E o fato de parecer uma indireta ao Hajime Isayama, foi a primeira coisa que pensei quando comecei a ler.

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  2. Sou fã de carteirinha de Berserk e quase não acreditei quando vi Gigantomachia na banca! Eu tinha esperanças de ver o mangá publicado por aqui, mas não tão cedo! E também tive um pouco dessa impressão quando li, de filme americano em que tudo só se resolve quando alguém de fora chega para salvar o dia do povo oprimido; mas acho que o que livra um pouco o Delos desse esteriótipo é o fato de que ele não “encorpora” a cultura do povo que está ajudando… humm como explicar?

    *Spoilers!*

    Acho que se fosse um filme americano, o Delos iria ganhar alguma arma mística ou ser “o escolhido da lenda” da tribo que ele tá tentando ajudar, tipo, “nenhum dos nossos guerreiros é tão bom quanto você, então pegue isto e nos salve por favor!”, sabe? Mas o Delos chega nos lugares, faz o que tem que fazer usando o estilo de luta próprio e único dele, e vai embora. Ele não vira a figura mais importante da tribo, ou domina algo típico do local melhor do que os próprios habitantes, ou rouba a importância dos outros guerreiros do local, apesar de virar meio que um herói.

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  3. Eu simplesmente não gostei, devido a todo o hype que existe em cima do autor eu não esperava que ele iria utilizar uma forma tão batida. Ficou para mim a impressão de que o autor tinha várias ideias boas, como o estilo de luta do Delos e a homenagem à luta livre, só que não tinha uma história para encaixar e aí ele viu algum “modelo pronto” e pegou. Porém é tudo questão de gosto né…

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  4. Eu não vejo problema com o uso da “velha fórmula hollywoodiana” porque eu realmente acredito que problemas internos são mais facilmente resolvidos com visões de fora. E sobre minimizar personagens negros, eu realmente não havia percebido e realmente não consigo ver desse modo.
    E como gosto muito de Berserk fiquei muito feliz em ver Gigantomachia nas bancas tão cedo e parabéns pelo trabalho.

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