Roteiro e Escrita: GANTZ ORIGINS – Organizando Ideias

Hora da aula! Vamos conhecer um pouco mais sobre ideias e como organizá-las para escrever uma boa história!

Texto originalmente publicado por Jussara Nunes.

“Eu não tenho um método. Tudo o que eu faço é ler muito, pensar muito, e reescrever constantemente. Não é uma coisa científica.”

Gabriel Márquez

Na mitologia grega, existe o mito das Musas: as nove filhas de Mnemosine e Zeus. O templo das musas era o Museion, termo que deu origem à palavra “museu” nas diversas línguas indo-europeias como local de cultivo e preservação das artes e ciências. Também pudera: as musas eram as entidades responsáveis por dar aos artistas a inspiração.

O processo de escrita tem vários métodos e anti-métodos, mas todos eles começam com uma ideia. Mas elas sozinhas não são fortes o suficiente para dar ao escritor o impulso de criar. Afinal de contas eu posso dar a vocês uma porção de ideias agora e a maioria delas não “soar nenhum alarme” na sua cabeça.

Uma ideia realmente valiosa para a criação de um conteúdo artístico é aquela que inicia uma cadeia de outras entrelaçadas na sua mente. O nome para isto é inspiração.

Aula 2: A Inspiração e a Organização

oiVocê está em um transporte público, indo para qualquer lugar. É provável que você esteja distraído, esteja lendo (é bom que leia bastante se quiser ser escritor), ouvindo música (de preferência com fones, por favor!) ou talvez observando o seu redor, prestando atenção nas pessoas. Subitamente você escuta a seguinte conversa atrás de você:

– E então? Gostou de ver a peça? Nosso grupo cênico é incrível não acha?

– Uma bomba naquele teatro e os caras da Fundação Casa ficariam sem emprego!

– Ei, ei! Aquela era uma apresentação beneficente para as crianças da comunidade! E, se quer saber, eu adorei me apresentar para elas! Foi uma experiência única, ainda mais no Pinheirão. É o teatro mais chique da cidade!

– “Mais chique”?! Essa informação saiu da onde? De uma revista de cultura para cupins?

– Para de reclamar e diz se você gostou de me ver atuando.

– Hmmm… Acho que o seu estilo precisa de mais… Stanislavski.

– Hein? Mas eu sigo o método Stanislavski!

– Não fala isso que o russo deve estar se revirando no túmulo…

– Ei, está dizendo que eu sou um ator ruim?!

– Tsk, sinceramente? Eu diria… péssimo.

– Ah, tá! Muito obrigado pelo apoio moral!

– Não fique magoado, a minha crítica foi construtiva. Seja como for, espero que esta coisa de teatro esteja te dando dinheiro.

– O que importa é a arte!

– Está dando dinheiro ou não?

– Uh…

– Sério, eu não quero ficar pagando passagem de ônibus para você a vida toda! E aí? O Fernando Torres aí já ganhou alguns trocados? Esta peça já está em cartaz há mais de um mês.

– Ah… sim! Mas eu estou… uh… ah, e você? Falando em dinheiro já terminou de ler aquele seu livro de autoajuda sobre finanças?

– Não adianta se fazer de esperto que eu já disse que você é um péssimo ator!

O que você faria depois de ouvir uma conversa como esta? Iria rir baixinho? Iria se identificar com a situação do pobre ator? Ou teria um lampejo para escrever uma história?

Foi uma conversa muito parecida com esta (não com estas exatas palavras, claro… e cujo assunto nem era sobre teatro) que fez eu ter um lampejo para começar a escrever um conto sobre dois caras falando dos seus empregos. Logo depois, por alguma contingência do destino, caiu nas minhas mãos uma revista cultural que falava sobre Stanislavski. Como a conversa ainda estava fresca na minha mente, formou! E tudo que detalhei para vocês se desenvolveu feito mágica na minha cabeça. Eu escrevi num papel e, quando cheguei em casa, corri para o computador e digitei este trecho.

Atualmente esta história está em hiato há uns… hã… sete anos, guardadinha no meu HD. Mas serve para exemplificar como você pode ter uma ideia para uma série inteira baseada apenas em uma simples conversa casual.

Este tipo de ideia é chamada de Inspiração ou Insight (traduzindo ao pé-da-letra: “ver por dentro”). Uma ideia que surge depois de um estímulo: uma conversa, uma imagem, um livro, um sonho, uma cadeia de pensamentos que você estava tendo no momento e que fazem com que toda uma estrutura para um projeto se desenvolva na sua cabeça quase instantaneamente. Insights são difíceis de descrever, mas quem já sentiu sabe muito bem como é a sensação.

Basicamente é uma sensação que te faz querer MUITO criar algo. Às vezes eles são tão fortes que você para tudo o que está fazendo até encontrar algum lugar onde possa anotar suas ideias antes de elas desaparecerem. Os gregos estavam certos quando criaram entidades sobrenaturais para representar a inspiração: a sensação é realmente divina!

Porém, momentos de inspiração e as ideias que surgem deles são apenas o primeiro passo para começar a escrever. É preciso colocar as coisas no lugar.

Gantz no Moto (Gantz Origins)

01Este simpático One-shot de menos de dez páginas foi escrito e desenhado por Hiroya Oku, criador da aclamada série Gantz. Ela conta de forma simples como ele teve o Insight para sua carreira de mangaka.

Tudo começou quando ele assistiu o filme De Volta Para o Futuro, de Robert Zemeckis e Bob Gale e ficou encantado. Para um jovem japonês que só queria alugar um filme pornô, foi um choque cultural tremendo. Ele ficou entusiasmado com o estilo Hollywoodiano e decidiu que suas obras teriam o mesmo impacto. O filme foi a inspiração de Oku para praticamente todos os mangas que ele iria criar, todas as suas obras deveriam ter o mesmo impacto para o leitor que De Volta Para o Futuro causou nele.

Impacto. Esta é uma boa palavra para começar a explicar o que é Inspiração. Mas só isto não basta, é preciso organizar as ideias e, principalmente, desenvolvê-las.

O BÁSICO DO BÁSICO

Não existe uma forma certa ou errada de se organizar ideias, mas existem alguns tópicos que são inexoráveis na hora de contar uma história. Ela precisa ter, no mínimo, duas coisas: personagem e acontecimento.

1 – Personagem

Qualquer história é a narração de algum acontecimento envolvendo um personagem. Não importa o tamanho do texto, nem o quão simples ele é. Podem ser apenas um microconto de menos de cem caracteres, como a obra “O Dinossauro”, de Augusto Monterroso. Vou apresentá-la na íntegra para vocês:

”Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.”

Esta é a história. Simples, não?

Reparem que neste microconto temos um “personagem principal” que, embora seja totalmente desconhecido, está presente: uma pessoa que acordou. E temos também o que aconteceu a ela: o fato do dinossauro (da onde ele veio não é importante) ainda estar lá.

Quando a Inspiração vier e você for impelido a escrever uma história, é bem provável que nem se preocupe direito em quem são os personagens dela e apenas escreva suas ideias por impulso. Como no meu texto no começo desta aula: temos dois personagens que sequer são identificáveis, embora saibamos que um deles é do sexo masculino (por causa do uso da palavra “ator” ao invés de “atriz”) e podemos dizer algumas coisas sobre suas personalidade: o ator em si parece ser entusiasmado, mas ao mesmo tempo inseguro com sua profissão. O outro personagem é sarcástico e cruelmente franco.

Desenvolver algumas linhas de personalidade aos personagens antes de começar a escrever é de suma importância para qualquer história – a não ser que você entre no ramo dos microcontos onde, às vezes, nem dá tempo de isto ser necessário. Qualquer narrativa, à medida que vai se alongando, sempre irá apresentar mais e mais do personagem que nela vive e o autor não tem saída a não ser prestar atenção para que não acabe, sem querer, fazendo seu personagem trocar de personalidade.

Não é incomum, em histórias ruins, personagens agirem de maneira esquizofrênica. Num momento são amáveis e apresentados como boas pessoas, mas num determinado momento da trama cometem atitudes que vão contra sua personalidade inicial. E se o motivo para mudarem de atitude não for bom o suficiente… bem, o leitor não se deixará enganar e vai concluir que a história é, simplesmente, mal escrita e que os personagens são mal construídos.

Você comprou bem a ideia do egoísta e tarado do Kurono, repentinamente, virar um cara solícito e ajudar o Katou?

Você comprou bem a ideia do egoísta e tarado do Kurono, repentinamente, virar um cara solícito e ajudar o Katou? Maaaais ou menos!

A profundidade com que você vai estruturar o seu personagem vai depender do quanto a história será longa (passado, motivações, etc… falaremos disto com mais detalhes numa outra aula). Ou seja, vai depender de quanto tempo vão durar os acontecimentos.

2 – Acontecimentos

Pode parecer bobo explicar o que são “acontecimentos”, mas estamos no território da teoria. Basicamente, acontecimentos são eventos que fazem os personagens realizarem ações, seja de forma Ativa ou Reativa.

Uma ação reativa seria a vida pacata do personagem ser abalada por algum acontecimento (como acordar e descobrir que tem um dinossauro na sala…) e ele reagir conforme. Uma ação ativa seria o personagem decidir sair da sua vida pacata devido a algum acontecimento e agir conforme.

Epa, epa, epa! Eles são as mesmas coisas? Porque, em ambos, o personagem só reagiu a acontecimentos! Mais ou menos. Acontecimentos também têm umas coisas chamadas Começo, Meio e Fim.

Voltemos à história do nosso amigo que acordou e achou um dinossauro na sala. Ele pode ter se assustado (ou não, depende do passado do personagem, da personalidade, do cenário, etc.) e fugido/lutado/desmaiado; ele REAGIU ao acontecimento. E vamos supor que o dinossauro, simplesmente, vai embora. Então, a ação “dinossauro na sala” terminou. Acabou o tempo de reação do personagem. Após isto, o personagem decide que precisa mudar de vida e ir para outro lugar onde não tenha dinossauros. Agora ele resolveu AGIR e iniciar um novo acontecimento.

Quando temos Insights é bastante comum que primeiro pensemos em acontecimentos e depois definamos personagens. Organizar os acontecimentos é mais simples: basta planejar sua Ordem Cronológica e sua Ordem de Aparição. Sim, há diferença. Uma história pode começar no meio da sua Ordem Cronológica, seguir para próximo do final, parar, voltar ao início, e depois seguir até o fim, tipo a ordem dos episódio de Star Wars. Mas é claro que, nem sempre, os autores já têm tudo na cabeça desde o início (ou você realmente acha que George Lucas já tinha planejado a nova trilogia na época em que lançou o primeiro filme nos anos setenta?).

Ameaça fantasma foi o primeiro em ordem CRONOLÓGICA, mas o quarto em ordem de APARIÇÃO.

Ameaça fantasma foi o primeiro em ordem CRONOLÓGICA, mas o quarto em ordem de APARIÇÃO.

Vale também apontar aqui um assunto que depois trataremos de forma mais detalhada: o final da história (em ordem de aparição). Um final coerente e que dê ao leitor a satisfação de ter chegado até o final é muito importante para qualquer obra. Não é incomum que muitos escritores não façam a menor ideia de qual será o final e só descubram isto quase ao mesmo tempo que os leitores – e isto não é, necessariamente, um ponto falho.

Mudar de ideia no meio do caminho, mudar acontecimentos ou sua ordem é totalmente normal nos primeiros estágios de organização de ideias. Mas é sempre bom ter um norte inicial antes de começar a escrever.

Agora, depois de definir personagens e acontecimentos, hora de pensar em coisas menos importantes, como o Cenário.

3 – Cenário

No microconto “O Dinossauro” que lemos não houve descrição de cenário, mas não foi preciso: nós já assumimos que o mundo onde a história se passa é o nosso mundinho normal, cotidiano. O que faz com que a aparição do dinossauro seja ainda mais espetacular. Esta é a razão porque literatura de fantasia tende a ser muito mais descritiva que os outros gêneros literários: é preciso explicar mais coisas para fazer o leitor entender que o mundo onde se passa a história não é o nosso.

Existem obras que se passam em mundos completamente diferentes do nosso (futurista, retrô, fantástico, épico, etc.) e o autor não revela isto de cara. Falha dele? Não, às vezes é uma maneira de pegar o leitor no susto ou, mais surpreendentemente, fazer com que ele fique surpreso ao descobrir que, apesar de ser um mundo completamente diferente, é tão parecido com o nosso. Matrix faz isto: só conhecemos o verdadeiro cenário na metade do filme.

Também definimos em que época se passa a história através do cenário. Era Vitoriana? Futurista? Presente? Um mesmo mundo pode se modificar dependendo da época em que a história está sendo contada.

Em alguns casos, o cenário É o próprio personagem principal! E as pessoas que nele vivem são apenas extensões da “personalidade” do mundo. A obra do finado Frank Miller (finado mesmo, pois dizem que ele morreu e foi substituído pelo Assassino Amarelo… *bazinga detected!*), Sin City, é um exemplo, digamos assim, “fraco” de como um cenário funciona como personagem: os seres humanos que nela inabitam não importam tanto, são descartáveis. A cidade e o que acontece a ela é o que mais importa.

A construção de mundos e cenários cativantes também demandam uma explicação mais detalhada, mas trataremos disto em uma outra ocasião.

A cidade de Sin City é a verdadeira personagem principal

A cidade de Sin City é a verdadeira personagem principal

4 – Checklist: 5W1H

Esta estranha sigla vem do inglês e se refere à uma série de perguntas que devem ser feitas antes de um escritor começar uma história. Ele deve ter uma resposta para cada uma, ou, ao menos, uma vaga ideia. E que perguntas são estas?

Who? (Quem?) When? (Quando?) Where? (Onde?) What? (O quê?) How? (Como?)

Compreenderam?

Existe também a variação 5W2H que incluiu o How Much? (Quanto custa?), mas isto já entra na jurisdição de empresas e de Recursos Humanos…

Estas perguntas devem ser respondidas pelo autor na sua história. Vamos pegar, de novo, o microconto:

Quem? – a pessoa que acordou.

Quando? – não se sabe.

Onde? – provavelmente em um lugar onde as pessoas possam dormir e que caiba um dinossauro.

O quê? – o dinossauro ainda estava lá quando o personagem acordou.

Como? – aparecendo, oras!

Reparem que o “quando” e o “onde” não foram bem explicados. Aliás, estas duas perguntas fazem parte da jurisdição de Cenário (eu disse que ele não era tão importante assim…). E o “como” parece ter uma resposta insuficiente. Afinal um dinossauro simplesmente não aparece do nada, certo? Bem, neste microconto sim!

Lembrem-se que estamos explicando as coisas de forma muito teórica e que eu disse que parece bobo explicar o que são acontecimentos. A resposta que demos para o “como” pode parecer extremamente insatisfatória, mas no caso do microconto, funciona. Você só precisa saber que o dinossauro apareceu (o Acontecimento teve um Começo, Meio e Fim, como é sempre necessário) e ficar surpreso com isto, pois este era, provavelmente, o intuito do autor. Se este microconto virasse um filmes de duas horas de duração aí sim precisaríamos de um “como” mais satisfatório.

Definido todos estes apontamentos, organizada as ideias, respondidas todas estas perguntas, então creio que você já está pronto para começar a escrever pra valer!

Mas isto fica para a nossa próxima aula! Até!

5 respostas em “Roteiro e Escrita: GANTZ ORIGINS – Organizando Ideias

  1. O/ Pergunta: O que fazer quando vc tem uma idéia sensacional, começa a escrever sobre ela e do nada (do nada mesmo), você começa a não achar tão boa, que poderia melhorar isso e aquilo, e entra em hiato? Todas as idéias que tive até hoje acabaram assim…

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    • Não existem ideias boas ou ruins, talvez você apenas tenha perdido ‘a mão’ na hora de desenvolver. Até as ideias mais bobas podem se transformar em histórias legais!

      Tente fazer isto: junte esta sua ideia com outra. Ou coloque num cenário diferente do que você estava planejando inicialmente. Vamos supor que você pensou em “alienígenas que ficam loiros quando superpoderosos” e imaginou isto acontecendo na época atual. Imagine agora isto acontecendo na era vitoriana e tente imaginar como as pessoas daquela época reagiriam.

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  2. Adorei o post e a iniciativa do Curso de roteiro e escrita! :)

    Mas o que fazer quando surge uma ideia “mirabolante” para sua história e ao colocar no papel você percebe que a “sua ideia” não passa de um agregado de elementos narrativos já usados em outras histórias? Sinto como se estivesse passando por um bloqueio criativo >.< Nada do que eu escrevo me parece "original".

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    • Sempre dá para reinventar a roda, basta pensar numa maneira diferente de desenvolver a ideia! Pegue “Guerra nas Estrelas”, um típico roteiro de faroeste, só que desenvolvido num cenário intergalático.

      E não há nada de mal em começar escrevendo coisas “cliché”, pelo menos para começar. E, de qualquer maneira, em breve irei apresentar alguns métodos para fazer a cabeça começar a funcionar com criatividade “na marra”!

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  3. Pingback: Roteiro e Escrita - Narração: Quem conta a história? - Gyabbo!

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