Colorful – Do suicídio às cores da vida

Colorful-movie-anime-poster

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, aproximadamente 800 mil pessoas morrem em razão de suicídio anualmente – por volta de uma morte a cada 40 segundos. Considerando que as tentativas chegam a ser 10 vezes mais comuns, os números que envolvem esse fenômeno chegam aos milhões todos os anos.

No Brasil vimos a incidência aumentar de 4.8 casos por 100 mil habitantes para 6.5 no período entre 2000 e 2016. Apesar de não estarmos entre os países com maiores números, seja mundial ou regionalmente, temos uma realidade cada vez mais alarmante, especialmente pelo avanço do desemprego entre as populações mais vulneráveis e à dificuldade de acesso aos serviços sociais e de saúde que poderiam intervir nessa realidade.

Quando pensamos no contexto japonês, a situação é ainda mais crítica. 14º país com maior incidência de suicídio no mundo e 2º no Pacífico Ocidental, o Japão apresentou 18.5 casos por 100 mil habitantes em 2016, número que já chegou a ser de 24.4 em 2010. A falta ou a menor qualidade da comunicação, especialmente dentro das famílias, são apontadas como fatores importantes para compreensão desse fenômeno [1].

Suicídio-Global

Taxa de suicídio global em ambos os sexos e sem variação de idade em 2016

Se há algumas décadas a maior parte das pessoas que se suicidavam estavam em uma faixa etária mais velha, atualmente há um avanço para as extremidades, considerando-se como um dos fatores de risco ser homem jovem (entre 15 e 39 anos) [2], exatamente o caso de Makoto Kobayashi, do longa animado Colorful, do diretor Keiichi Hara. Após se suicidar ingerindo medicamentos da mãe, Makoto tem seu corpo “ocupado” por outra alma que recebeu uma nova chance para entrar novamente no ciclo da reincarnação.

Tentando não entrar em grandes spoilers, pode-se dizer que Colorful é uma grande autópsia psicológica, um método de investigação que busca:

[…] compreender os aspectos psicológicos envolvidos em uma morte específica. […] É uma estratégia utilizada para delinear as características psicológicas de vítimas de morte violenta, sendo utilizada durante o curso de uma investigação de morte, para auxiliar a determinar o modo de morte de um indivíduo, especialmente em casos duvidosos. […] Passou, também, a contribuir na corroboração e/ou identificação de novos fatores de risco e correlatos sociodemográficos do suicídio [3].

Acompanhamos os dias da alma ocupante do corpo de Makoto que deve, com ajuda do “anjo” Purapura descobrir não apenas os motivos que levaram o garoto ao suicídio, mas também resgatar as próprias memórias perdidas de sua vida em busca de não retornar ao limbo da não existência.

Diferente da maioria dos animes, mesmo aqueles voltados para o drama, Colorful não se importa em nada com o entretenimento do espectador. Desde o início seu ritmo é extremamente lento, preocupando-se em ir construindo bem aos poucos as relações sociais que circundavam Makoto, especialmente sua família e posteriormente a escola. Não se investe em grandes revelações ou reviravoltas. Procurando ser tão mundano como a vida de qualquer garoto de 14 anos é, o diretor Hara nos entendia ao mesmo tempo que instala certas emoções que serão exploradas posteriormente.

Assim, ao invés de simpatizarmos com a história de Makoto – ou do novo Makoto encarnado -, inicialmente passamos a detestá-lo. Mas se ele é caprichoso, egoísta, frio e principalmente cruel com sua mãe, temos um protagonista que responde a um mundo interno extremamente frágil, como se ele estivesse caminhando sobre uma fina camada de gelo prestes a ceder. Aos poucos vamos percebendo que não há aqui um julgamento moral daquele que se suicida, mas sim a compreensão das condições que o levaram até ali. Essa percepção causa um desconforto direto em nós mesmos ao percebermos que estávamos julgando o personagem.

Sozinho, seja na escola ou em casa, há um dualidade marcante no garoto. Ao mesmo tempo que tem raiva de seus familiares e colegas de turma, constrói em cima de alguns deles uma idealização que o mantém minimamente conectado ao mundo ao seu redor. Ao mesmo tempo que ama e necessita, odeia e impõe uma perfeição principalmente às figuras femininas. O ódio do mundo, o ódio de si é remetido a elas em um processo extremamente misógino e culpabilizador.

[Aurora] カラフル (BD 1920x1080 x264 AACx3).mp4_snapshot_00.41.35_[2020.01.12_18.11.12]

Apenas quando essa idealização é abandonada para realmente se encontrar com o outro é possível se desprender dos ressentimentos do passado. É nesse momento que Colorful abandona a interessante autópsia psicológica do seu protagonista para deixa-lo crescer, desenvolver-se, ainda que às custas de certa simplicidade. Isso não compromete a experiência, mas finaliza o filme com um certo gosto de contradição. O tom moralmente otimista simplesmente não se encaixa, ainda que ele fosse necessário ao trabalhar-se um tema tão delicado.

Em suas duas horas, Colorful nos desafia a pensar o suicídio para além de clichês tão propagados em épocas de setembros amarelos. Para além de “amar a vida”, é necessário que nós enquanto sociedade repensemos as forma de relações sociais que estamos construindo e fomentando dia após dia. Saindo da ingenuidade de tratar o suicídio como resultado de um evento grandioso único, o filme nos faz vê-lo como o resultado de fatores sociais, biológicos, psicológicos e situacionais que ele realmente é. Existem sim eventos-gatilho, mas é na vida quotidiana, dia após dia, que ele se constrói.

E que, sim, é possível desconstruí-lo.


IMPORTANTE

Caso você esteja percebendo em sua vida ou na de alguém próximo fatores emocionais (tristeza prolongada, desânimo constante, perda do prazer em coisas que antes satisfaziam), sociais (vivência de relações abusivas, traumas, violência, desemprego, vulnerabilidades sociais), psiquiátricos (Esquizofrenia, Bipolaridade, Transtornos de Personalidade, Depressão, Transtorno de Ansiedade) ou biológicos (doenças crônicas ou que causem grandes mudanças de vida) que possam colaborar com ideação e/ou tentativa de suicídio, procure ajuda profissional.

Caso você não tenha condições financeiras para contratar um profissional diretamente, busque a UBS mais próxima de sua residência para ser encaminhado ao serviço especializado via SUS. Também é possível encontrar atendimento psicológico gratuito ou com valor popular nas universidades que oferecem o curso de Psicologia.

Em situações agudas avise alguém de sua confiança, ligue 188/acesse o site do Centro de Valorização da Vida para ser atendido 24h ou dirija-se ao Pronto Socorro mais próximo.


Fontes:

[1]. TAPLIN; LAWMAN – Mental Health Care in Japan (2012)

[2]. QUEVEDO; CARVALHO (Org.) – Emergências Psiquiátricas (2014)

[3]. WERLANG – Autópsia Psicológica, importante estratégia de avaliação retrospectiva (2012)

2 respostas em “Colorful – Do suicídio às cores da vida

Comente e participe da discussão

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s