Gyabbo! & J-Wave: Entrevista com Mauricio de Sousa

Muitas pessoas não acreditam, mas aprendi a ler meio que sozinho, lembro bem até hoje de uma professora falando orgulhosa para outra sobre isso enquanto pedia para eu ler algumas páginas de uma revista do Cascão. Os anos se passaram e eu não larguei o costume de comprar revistinhas de Turma de Mônica, sempre voltava pra casa de ônibus com umas duas na mão, às vezes mais. Se hoje sou leitor assíduo de mangas, devo ao gosto pela leitura dos quadrinhos que ganhei com as histórias do gênio Mauricio de Sousa.

Falar de Mauricio de Sousa é falar da história dos quadrinhos brasileiros, porque ele e seu império de quadrinhos são únicos.  Criador de Turma da Mônica, a revista em quadrinhos mais vendida do país, tem uma história de sucesso, presente nas 3 maiores editoras do país; passando pela editora Abril, 20 anos de editora Globo e atualmente na Panini Comics.

Ano passado, apresentou ao público uma Turma da Mônica adolescente, utilizando-se da inspiração e narrativa dos quadrinhos japoneses, o mangá. Sendo um sucesso comercial e vendido mais de 400 mil exemplares, Turma da Mônica Jovem vende 10 vezes mais que o mangá mais vendido do Brasil.

Numa história que atravessou 5 décadas, tendo diversos filmes, séries animadas e publicação dos quadrinhos em diversos países, Mauricio de Sousa é hoje sinônimo de quadrinho nacional.

Essa será a primeira de uma série de entrevistas que tanto o J-Wave e o Gyabbo! estão preparando para apresentar um pouco mais da cultura pop japonesa dentro do Brasil.


Ambos se juntaram para entrevistar Mauricio de Sousa e contar sobre sua carreira e principalmente sobre o sucesso do mangá Turma da Mônica Jovem. Gentilmente, entre suas férias de fim de ano, Mauricio nos deu essa entrevista:

Gyabbo! & J-Wave: Apesar de baseados em familiares, os personagens da Turma da Mônica acabaram virando sinônimo de suas características, como Cascão para meninos que não gostam de banho; como foi o processo de desconstrução dessas características tão marcantes?

Mauricio de Sousa: Imagino que essa pergunta é referente à adaptação dos personagens infantis para os adolescentes, certo? Não houve desconstrução mas sim evolução de um mundo infantil para um adolescente. Se o Cascão continuasse sem tomar banho como iria conseguir arrumar namorada?

G&J: Em termos de carinho pelos personagens, como foi vê-los “crescer”?

MdS: Como um pai. Curtindo ao máximo.

G&J: O senhor comentou uma vez que já tinha imaginado a Turma grandinha e não era baseada em mangá. Pode nos falar um pouco como era essa versão de Tuma da Mônica Jovem?

MdS: O projeto da Turma da Mônica Jovem tem mais de cinco anos. Originalmente não era para ser em estilo mangá. Mas após as comemorações dos 100 anos da imigração japonesa no Brasil, em 2008, achei que era a hora e a vez de mesclar nosso estilo com o estilo mangá para agradar à toda essa faixa de leitores adolescentes que estavam migrando de minhas revistas para o mangá.

G&J: Temos na equipe de roteiristas de Turma da Mônica Jovem pessoas famosas no meio do anime e mangá:  Marcelo Cassaro que foi roteirista de Holy Avenger, o mangá nacional mais  próspero e Petra Leão, uma cosplayer famosa.  Como funciona essa influência deles em Turma da Mônica Jovem? Já que vimos muitas referências pessoais dos dois, como Cascão ser um otaku, e o RPG online Animecraft que citou várias séries de anime e mangá.

MdS: O Cassaro e a Petra estão contribuindo bastante com o sucesso da Turma da Mônica Jovem pois têm uma bagagem de cultura pop japonesa que agrada muito aos leitores. Mas os outros roteiristas também estão se adaptando perfeitamente à esse novo universo em nossas publicações.

G&J: O senhor comentou que Turma da Mônica Jovem poderia ter uma série animada, possivelmente animada na China. Existem novidades relacionadas a isso?

MdS: Desenho animado é algo complicado de se produzir. Precisa de planejamento, estrutura de produção e investimentos. O convite existe por parte de uma produtora americana mas ainda estamos na fase de planejamento.

G&J: Uma vez o senhor comentou que gostaria de fazer o Chico Bento, mas não baseado em mangá. Como anda o projeto? E por que não vai ser baseado em mangá?

MdS: Esse é um projeto que pede muita pesquisa pois quero um Chico Bento adolescente que resolve ficar no campo e se envolve com a luta ecológica. Por enquanto penso em não ser no estilo mangá para não misturar com o universo da Turma da Mônica Jovem. Mas pretendo já lançar um especial no segundo semestre de 2010.

G&J: Muito do que é lido de mangas no país é feito através de scans, traduções feitas por fãs e disponibilizadas na internet de graça. Como o senhor vê essa tendência mundial de ignorar direitos autorais, tanto de maneira geral quanto relacionado à Turma da Mônica.

MdS: A pirataria pode inviabilizar um projeto por não possibilitar o retorno do investimento nos profissionais e na produção/impressão. Para isso temos advogados e milhares de leitores que torcem por nós e denunciam logo que haja algo irregular acontecendo.

G&J: A Turma da Mônica Jovem está sendo publicado fora do país? Se sim, como está sendo recebida?

MdS: Estamos com um pouco mais de um ano publicando no Brasil. Embora haja projetos, ainda é cedo para publicarmos fora do Brasil.

G&J: A indústria de games cresce cada vez mais, ultrapassando mesmo o cinema. Existem planos para jogos da Turma da Mônica Jovem como a Turma da Mônica teve no passado?

MdS: Realmente a área de games da Turma da Mônica está merecendo mais atenção. Esperamos que em 2010 nossos projetos sejam agilizados. Posso dizer que começará pela reformulação de nosso site e, claro, também com a Turma da Mônica Jovem.

G&J: O público de Turma da Mônica Jovem em sua maioria já lia mangas originais ou o senhor acha o inverso? Acredita que Turma da Mônica Jovem tenha sido porta de entrada para público ler mangas?

MdS: Parte do público lia mangá mas conquistamos também quem não lia e se adaptou à linguagem. Embora nosso público-alvo para a turma da Mônica Jovem seja o leitor que já tenha seus 12 a 15 anos, uma boa parte são de 7 à 10 anos. Para se ter uma idéia, a turma da Mônica Jovem vende mais de dez vezes do que o principal mangá japonês publicado no Brasil.

G&J: Pensando em Japão, não teríamos um perfil definido para a Turma da Mônica Jovem, existe a possibilidade do mangá da Turma da Mônica Jovem um dia ter um título dirigido para garotos e outro para garotas?

MdS: Por enquanto achamos que não. Os personagens principais agradam justamente por haver um equilíbrio entre meninos e meninas. O leitor brasileiro gosta e aprova.

G&J: E é possível pensar em um esquema de publicações para a Turma da Mônica Jovem como é feito para a Turma da Mônica, com publicações solo?

MdS: Isso é uma idéia para o futuro. A Turma da Mônica Jovem ainda é muito recente.

G&J: Mauricio de Souza é um nome equivalente a Walt Disney e a Osamu Tezuka. Apesar disso o Brasil é marcado por ser um país onde lê-se pouco, por que não temos outros criadores tão criativos e lembrados como o senhor e leitores mais ávidos?

MdS: Quando comecei a publicar, o Disney era o rei das bancas de jornal. Aos poucos fui ganhando na raça esse espaço e hoje a posição está invertida. Acho que o segredo é não parar no tempo. O leitor está muito mais exigente e gosta de ver que o autor sempre tem novidades para apresentar. A constatação está na turma da Mônica Jovem que é a maior vendagem dos últimos 30 anos no Brasil e uma das maiores no mundo. Se eu pensasse que brasileiro não gosta de ler não teria esse sucesso. Se eu pensasse que o jovem está substituindo a leitura pelos equipamentos eletrônicos não apostaria em mais uma publicação. A verdade é que o leitor gosta do que é bom. Independente da plataforma de comunicação em que se apresente o produto. Temos vários autores criativos e muitos já estão conquistando seu espaço. Basta ver o especial MSP50 que lançamos nas comemorações dos 50 anos de minha primeira publicação. São 50 autores da maior qualidade. Alguns que publicam no exterior. Mas não cabe em um livro apenas e vamos ter mais outros 50 numa próxima edição.

G&J: O senhor poderia comentar um pouco como era a sua amizade com o mestre dos mangas, Osamu Tezuka?

MdS: Nos conhecemos emuma das minhas viagens ao Japão e desde então ficamos amigos. Ele dizia que meus personagens já tinham olhos grandes como os do mangá e fui descobrindo que como criadores tínhamos muito em comum, apesar de morarmos tão distantes. mas quando eu ia ao Japão, me encontrava com ele. E quando ele veio ao Brasil, foi meu hospede na chácara.

G&J: Conhecendo sua amizade com Osamu Tezuka, existe algum outro autor japonês que o senhor admira? O senhor lê ou já leu (com exceção dos de Tezuka) algum manga?

MdS: Acompanho os grandes sucessos de mangás por interesse na linguagem da leitura rápida e traços ágeis. Cavaleiros, Dragon Ball e Naruto são sucessos não só no Brasil. Mas quando vou ao Japão folheio as novidades de lá também.

G&J: Existe uma grande discussão entre o que é um verdadeiro manga, se o que se produz no Japão ou HQ’s com uma determinada estética e estilo narrativo. Como o senhor definiria um manga?

MdS: Mangá é ação e emoção. Irradiados por todos os lados.

G&J: No Japão o mercado de quadrinhos abrange todas as idades, acredita que no Brasil isso também seja possível visto o estereótipo de quadrinhos como obras infantis?

MdS: Comparar o Brasil ao Japão é cruel. Por lá temos centenas de títulos sendo publicados. Assim existem diversos públicos a serem trabalhados. Aqui temos uma base de leitores infantis que depois pulam para os mangás e super-heróis. Quando se tornam adultos já não procuram quadrinhos com a freqüência de antes. Só agora, com a Turma da Mônica Jovem, estou podendo trabalhar a Turma da Tina para um público jovem/adulto com a média dos personagens nos 18 anos.

G&J: O senhor comentou uma vez para a revista Henshin da editora JBC que gostaria de trazer um mangá do Osamu Tezuka e adaptar para o público brasileiro. Existe ainda essa intenção e como seria a adaptação?


MdS: Após a morte de Tezuka, os planos que fazíamos ficaram esquecidos. Mas pretendo ainda fazer um trabalho em conjunto entre meus personagens e os desse grande e saudoso autor. (Nota: Mauricio conseguiu os direitos para trabalhar com os personagens de Osamu Tezuka, mais informações ler aqui.)

G&J: Existe alguma intenção de desenvolver um encontro entre os personagens do Mauricio de Souza Produções com Tezuka Produções?

MdS: Já estamos conversando sobre isso com a família do Tezuka. Quem sabe anunciamos nesse ano ainda? Haverá um grande evento de mangá e animê no Sambódromo do Anhembi (SP) em final de maio de 2010 – o Megamangá Fest. Até lá teremos novidades.

(Nota: Mauricio conseguiu os direitos para trabalhar com os personagens de Osamu Tezuka, mais informações ler aqui.)

G&J:Por fim, existe a possibilidade de Turma da Mônica Jovem encontrar Turma da Mônica numa viagem do tempo em algum especial das duas séries?

MdS: Nada é impossível mas seria uma história especial.

G&J: Deixe uma mensagem final para os fãs de animes e mangas por favor.

MdS: Costumo dizer que a turma da Mônica Jovem não é mangá puro mas mesclado com nosso estilo. Isso porque creio em uma linha de mangá brasileiro e que está dando certo como publicação. Espero que mesmo os puristas que amam  a linguagem dos mangás e animês estejam gostando dessa química.

Nota1: Todos os negritos aqui são de responsabilidade do blog Gyabbo!

Nota2: Gostaríamos de agradecer ao Maurício que nos concedeu essa entrevista no meio de suas férias e José Alberto Lovetro, seu acessor, que nos atendeu com muita gentileza.

Abandone as séries medianas

Hello everybody! Mais um fim de semana, mas um post, apesar de eu estar muito atarefado, mas sempre procuro um tempo para fazer esse post, principalmente pelo blog vir dando respostas progressivamente positivas; consecutivamente nas duas últimas semanas foram quebrados recordes de visitas diárias, semanais e mensais, algo que me deixa muito feliz e agradeço muito para aqueles que visitam o Gyabbo!

Antes de começar o post propriamente dito vou aproveitar para fazer um jabá rápido: hoje mesmo saiu o primeiro podcast do blog J-Wave (clique no link para ir até à página e baixar), do Juba. Além do próprio, esse podcast contou com a participação do Leo Kusanagi do blog Mithril e de Calliban, que eu desconheço, mas falou com propriedade durante o programa. Eu já ouvi, vale muito a pena e é o tipo de coisa que eu gosto de ver, tanto que sinto falta do podcast do JBox.


Há pouco tempo o Scamp, do blog Bakutachi no Blog, publicou um post muito interessante sobre o fato dele estar droppando cada vez mais séries e com uma frequência também cada vez maior. O principal ponto que Scamp coloca no seu post para explicar isso é na verdade bem simples; ele não assiste séries medianas.

E isso é algo com que eu já venho pensando há um certo tempo.

Se eu for pensar no meu histórico como fã de animes, foram 162 animes completos durante toda a minha vida, porém, somente o ano de 2008 foi responsável por 39 desse total, quase um quarto (isso sem contar que esse ano eu já vi uns 23 animes). Já tem um bom tempo que sou fã de animes, mas a verdade é que não deve ter nem dois anos desde que comecei a ver um número realmente grande de séries, acompanhar as temporadas e tudo mais (e o Gyabbo! teve um papel muito grande nisso).

A verdade é que nesse processo a empolgação acabou me levando a assistir muitas coisas, mesmo que nem sempre elas fossem realmente divertidas. É meio difícil explicar, mas posso fazer uma analogia com as pessoas que não comem para emagrecer. O corpo pensa que não terá comida por muito tempo e estoca gordura, causando o efeito contrário do esperado. É mais ou menos isso que eu vim fazendo durante esse tempo, como só agora posso e vejo muitos animes, acabei desenvolvendo uma grande tolerância quanto àquilo que desisto de assistir.

Só que isso vem mudando lentamente.

Apesar do número de séries que eu vejo ainda seja alto comparado ao que era antigamente, não tenho mais a mesma paciência que tive por exemplo para assistir Persona – trinity soul –, seja por ter cada vez menos tempo ou mesmo por que as coisas parecem saturadas demais, como apontou em um post anterior o Leandro do blog Subete Animes, me vejo cada vez menos vendo coisas que não façam pensar “Poxa, eu realmente quero ver o próximo episódio!”, como acontecia com Paranoia Agent.

Não sei se só eu sinto isso, mas durante muito tempo ver vários animes, independente da sua qualidade, era quase uma obrigação. Mas animes nada mais são do que entretenimento, para que estragar toda a diversão com esse tipo de pensamento? A questão aqui não é julgar as obras, tenho certeza que muita gente gostou de School Days, mas sim de entender aquilo que realmente lhe diverte, lhe entretem!

É por isso eu eu apoio o que comentou o Scamp em seu post e vou cita-lo para um melhor entendimento:

The ones that you can’t really muster much enthusiasm to watch the next episode. The anime where you can’t really remember the characters names. The one where, if someone asked you if it was any good, you would reply with a resounding ‘meh’. If you take anything from this post then take this message: Drop the average series. Take a look around you at the vast amount of anime at your disposal. There will always be something else to watch.

http://brianandrew.wordpress.com/2009/10/29/ending-up-with-more-dropped-series-than-watched-series-is-now-looking-like-a-serious-possibility/

Em uma tradução livre:

Aqueles que você não consegue realmente juntar muito entusiasmo para assistir ao próximo episódio. O anime onde você não consegue realmente lembrar o nome dos personagens. Aquele que, se alguém perguntar se é bom, você responderia com um retumbante “meh”. Se você tirar alguma coisa desse post então tire essa mensagem: Abandone as séries medianas. Dê uma olhada na vasta quantidade de animes à sua disposição. Sempre existirá outra coisa para assistir.

Apesar disso eu mesmo sei que ainda estou em um processo de acompanhar realmente só as séries que me interessam, como atualmente FMA: Brotherhood e Nyan Koi! fazem, mas é algo que pretendo alcançar.

E vocês, o que acham?