Oyasumi Punpun

Confira as aventuras de um “bichinho indefinido” que é demasiadamente humano neste incrível manga: Oyasumi Punpun.

Vida é o que acontece com você enquanto estiver ocupado com outros planos

John Lennon

Bem-vindos às noites de segunda-feira do Gyabbo!, onde os bizarros são normais!

Hoje vamos falar de um seinen muito peculiar, criado por um autor que já apareceu no Brasil estreando com sua obra Solanin – outra que recomendo muito ler -, o mago-do-impossivelmente-real, Inio Asano, um dos melhores escritores de seinen da atualidade. Embora tenha muitas séries na carreira, esta é a obra que realmente o consagrou: Oyasumi Punpun – ou Boa Noite, Punpun em tradução livre.

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Nesta história, conhecemos Punpun, um… um… como explicar?

Bem, vamos começar com o enredo.

Punpun é um menino de classe-média japonesa, fruto de um casamento malsucedido, mas que tem em seus preciosos amigos a força para ser feliz. Estudante do fundamental, tímido e inocente, sua vida não é muito diferente das outras crianças. Mas tudo começa a mudar quando ele conhece uma nova colega de classe: Aiko.

Foi paixão à primeira vista, embora nem consiga entender o amor direito. Na sua meninice, ele sonha em como seria a vida: descobrindo uma estrela com o telescópio do seu pai, ganhando um prêmio Nobel e indo morar com sua amada numa casinha nesta estrela tal qual o Pequeno Príncipe. Punpun é um menino religioso que reza todas as noites… embora o Deus que aparece para ele tenha uma aparência um tanto estranha.

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Desnecessário dizer que, aos poucos, suas visões infantis vão se desintegrando uma a uma com o passar do tempo.

Após uma briga mais violenta em casa, Punpun vê-se afastado dos pais e encontra no tio uma figura parental quase ideal, a quem pede conselhos – embora o próprio tio também seja outro ser humano confuso com sua vida como todos nós.

A medida que Punpun vai crescendo, sua visão de mundo vai se modificando. Ora otimista, ora pessimista. Ora completamente louca, ora muito sã. Natural, afinal todos nós mudamos nossa visão de mundo com o tempo – ainda mais quando somos crianças. Seus amigos também se modificam ao redor dele, sobretudo Aiko.

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Bem, lendo isto parece um enredo novelão bastante simples, não?, semelhante a seriados do tipo slice of life, como o velho Anos Incríveis. Porém a grande jogada de mestre do autor Asano está no modo como ele decide caracterizar Punpun e sua família: como um bando de “patinhos” rabiscados por uma criança.

Patos? Não sei. É o que mais me lembra quando eu olho para o personagem, mas muitos leitores têm opiniões diversas sobre o que representa aquele rabisco. Lembra também um pouco aquela icônica figura do quadro “O Grito” do norueguês Edvard Munch – um dos símbolos máximos do movimento expressionista.

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A ideia de fazer o personagem principal como um “pato” ou coisa parecida é, unicamente, poética. Sabemos muito bem que Punpun é um menino normal, de aparência normal, mas o autor decidiu representa-lo assim não só para diferenciá-lo, mas também para casar melhor com os conceitos gráficos bizarros que ele coloca em sua obra.

A arte de Asano é bastante realista – principalmente com o uso maciço de fotografias para compor os cenários – e por isto mesmo que Punpun e sua família saltam enormemente aos olhos. O surreal é tão marcante que é impossível desassociar a série dela, com seus elementos cartunescos que surgem em determinados momentos de emoção, tal como o estranho cara sorridente de óculos e cabelo afro que parece ser uma espécie de “divindade”, as mudanças “físicas” do personagem (que vira um triângulo, um quadrado ou uma bola dependendo do humor), e até mesmo as estranhas visões do personagem Shimisu… Tudo se confronta com o realismo ao redor em uma quebra total de expectativas que nos joga de forma intensa nas vivências de cada personagem, não somente do Punpun.

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Harumi, talvez o mais normal dos garotos e o personagem que podemos usar como parâmetro para os outros é um rapaz estudioso, de óculos, inteligente em termos, mas também muito inocente. Komatsu destaca-se por ter os olhos sempre arregalados e por, depois de alguns anos, se descobrir muito bom para esportes – e talvez um pouco obsessivo por eles.

Shimisu, o mais infantil de todos, parece que jamais saiu do jardim de infância. É um dos primeiros personagens, além de Punpun, a se destacar. Dá-se a entender que ele também tem problemas em casa, pois sua mãe é retratada apenas como um braço sempre esticado muito próximo do chão (nem tente entender sem ler!). Ele tem em sua cabeça uma figura divina muito peculiar… um homem com corpo de santo e cabeça na forma de um cocô!

Seki é o casca-grossa da turma, o “cara maduro”. Filho de um bêbado, é o típico garoto-problema da escola. Não estuda, não é gentil com ninguém e até fuma, apesar da pouca idade. Ironicamente ele está sempre por perto de Shimisu, o mais infantil, para protege-lo.

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E o que dizer de Aiko? Bom, só posso dizer que ela, apesar de ser pintada no começo da série como uma menininha perfeita, também tem seus problemas como todo mundo. Aiko parece sempre ser um pouco mais madura do que a média, mas isso se deve à sua família disfuncional como “desapoio”. Sua mãe segue um culto esquisito e a arrasta para todo o canto, tentando espalhar a sua palavra divina. E, claro… isto não vai facilitar as intenções amorosas do nosso heroico Punpun.

Existem outros personagens que também são destaques porque eles aparecem na história o tempo todo, embora pouco se saiba sobre eles: duas estranhas garotas com expressões idiotas que parecem ser colegas de classe, um homem negro sem nome que sempre aparece em momentos aleatórios, uns adultos retardados meio foras da realidade o tempo todo… muito bizarro! Muito simbolismo que, certamente, escapa ao leitor mais desatento e mesmo ao mais atento em uma única leitura.

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A todo instante, a cada página virada, nos surpreendemos com tudo que ocorre na série. E, acima de tudo, nos surpreendemos com as reações e atitudes dos personagens. A princípio, quando olhamos de fora parecem coisas tão absurdas, coisas que ninguém em sã consciência faria. Mas quando entramos na mente deles podemos pensar: “Diabos… até que faz sentido!” e isto, de certa forma, é um pouco assustador.

Mas, o maior enigma da série certamente está na pergunta: afinal, qual o significado do “pato”? E por que só a família de Punpun eram “patos” se eles não agiam tão diferentes do restante das pessoas? Mais importante: Punpun era o único personagem que falava em off, sem balões – até seus familiares falavam em balões. Por que a fala do personagem principal era dessa maneira? E mais interessante: há momentos em que podemos ver pequenos “lapsos” de realidade gráfica nestes personagens – um olho mais realista ao invés de um pontinho preto, um mão perfeitamente desenhada ao invés de ser um tracinho…

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Daria para escrever uma tese de doutorado sobre todos os simbolismos que aparecem nesta obra. Mas mesmo quem não se interessa a fundo nesta parte ainda tem que concordar que são sacadas geniais e que só maximizam nossa atenção na trama: se fossem apenas personagens reais desenhados todos bonitinhos, não haveria tanta reflexão. Sem este elemento crucial, a série ainda seria muito interessante, mas não teria nem metade do impacto e nem um terço da deliciosa bizarrice que a permeia.

Oyasumi Punpun é aquele tipo de obra que serve para você ler, reler, refletir e fazer uma interiorização. Como anda a sua vida? Estaria você realmente atento a ela? Você realmente a controla ou deixa que os outros façam isto por você? Indiferente dos seus objetivos externos profissionais, sociais e amorosos, quando você olha para dentro… você gosta do que vê?

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Mestre Asano certamente modelou para nós um dos quadrinhos mais espetaculares da década e um dos mangas mais inesquecíveis até hoje. É leitura obrigatória a todo amante de seinen e deve estar no topo das prioridades não só para quem curte muito manga, mas também para os que apreciam HQs em geral.

Publicado originalmente na revista Weekly Young Sunday de 2007 a 2013, Oyasumi Punpun está completo em um total de 13 volumes encadernados.

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6 respostas em “Oyasumi Punpun

  1. Ola! Por que o Pumpum é um pato? Já li que o autor queria representar todos os personagens assim mas o editor o convenceu do contrario. Não acho que esta explicação seja satisfatória, visto tanto o desenvolvimento das outras obras do autor quanto a importância das distorções que os outros personagens sofrem em vários momentos (é importante que eles sejam humanos nestes momentos). Acho que: 1) Punpun se sente a parte dos demais e como os laços com sua família o faz achar pertencente aquele grupo, 2) Por ser uma figura sem expressão e neutra fica mais fácil para o leitor colocar suas emoções nele. Acho que isto também ocorre nas falas. Quando o autor coloca no balão de fala por exemplo “vamos sair daqui”, não existe a dúvida de como isto foi feito, quando o autor coloca que “Punpun disse para sairem dali” se abre uma série de possibilidades para o leitor.

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